Depois do desafio do Marco do Bitaites fiquei a cismar naquelas que podiam ser as minhas sete canções da vida. Decidi não escolher as melhores sete canções da minha vida, seria impossível empreender tal tarefa. Por isso, pensei naquelas que terão sido as mais significativas. Desde as primeiras coisas que ouvi e me fizeram gostar de música até àquelas que me abriram as portas de outros mundos.
Começando pelo princípio devo dizer, para minha vergonha, que a primeira música de que me lembro de pensar: "eu gosto realmente desta música", foi a balada dos Bee Gees "How Deep Is Your Love?" Cada vez que a ouvia na rádio (que era a única maneira de ouvir música nesses tempos porque não tinha gira-discos nem gravador de cassetes) arrepiava-me todo, como quando acontece com uma música que nos toca "daquela" maneira. Era uma coisa emocional fortíssima que eu não podia ignorar. Mais nada me fazia sentir "daquela" maneira.
Passariam alguns anos, talvez dois, até descobrir os meus dois grupos preferidos. Os Queen e os Police. Dos primeiros ouviria até à exaustão em casa do Pedro os discos The Game e Live Killers e depois aos quinze anos 'Radio Gaga'', os segundos seriam a minha banda de eleição: principalmente o álbum Zenyatta Mondata que ouviria centenas de vezes durante os próximos meses. A canção que me fazia parar o coração não era 'Don't Stand So Close to Me' mas sim 'Canary in a Coalmine'. Lembro-me de emprestar a cassete (original) do disco, ao Miguel Sotero (isto é só para quem conhece) e de ela ficar com uns cortes na gravação, cortes esses que durante muitos anos iriam fazer parte da maneira como eu conhecia as canções. De tal maneira que, anos mais tarde, quando as ouvi sem os cortes me pareceram paradoxalmente estranhas.
Pelo meio, lembro-me de a minha avó, me oferecer, no Natal de 1980, um gravador de cassetes, daqueles que mais tarde seriam usados para loadar " " jogos no spectrum, no qual ouvia 'De do do do de da da da' até à a minha mãe entrar em parafuso. Outra música da minha vida foi 'Another Brick in the Wall' dos Pink Floyd. Eu frequentava a escola preparatória em Cascais, tinha dez anos, e lembro-me do toque da saída das aulas despoletar os nossos gritos de revolta "Hey teacher, leave the kids alone!" Os professores riam-se das nossas precoces preocupações libertárias.
Seja como for, estávamos no princípio dos anos 80, o boom do rock português no seu auge, eu ouvia UHF ('Cavalos de Corrida'; 'Rua do Carmo'), Táxi ('Chiclete'; 'TVWC'; 'Às dos Flippers'), Rui Veloso ('Chico Fininho'; 'Rapariguinha do Shopping'), Xutos e Pontapés ('Sémen'; Toca e Foge'; 'Leo'), Iodo ('Malta à Porta'), o programa da rádio 'Rock em Stock' do António Sérgio onde apanhávamos as coisas mais esquisitas: Street Kids; Arte e Ofício; Roxigénio, Grupo de Baile. Eram tempos gloriosos, quando tudo parecia possível na música portuguesa. Lembro-me dos Tantra com o álbum Humanoid Flesh, que anos mais tarde se tornaria insuportável face às loucuras dos dois primeiros discos deles, absolutamente maravilhosos: Mistérios e Maravilhas e Holocausto.
Seguir-se-iam anos de inanidade com os Duran Duran (nem sei como é que a minha mãe me conseguiu aturar...), os Classix Nouveaux, os Spandau Ballet, os Human League e outras bandas mais ou menos estúpidas, ah, os Soft Cell, que coisa parva! Os dias eram passados a sintonizar rádios e a preparar cassetes virgens para gravar o que passava, à espera que o locutor não cortasse muito as canções com os seus comentários sempre na pior altura.
Só anos mais tarde, em 1985 ou 86 talvez, eu conheceria o Arnaldo que mudaria de forma radical o meu gosto musical. Ele era um assíduo dos concertos dos UHF, como eu, mas também fã incondicional dos Queen (olha quem!). Seria ele a introduzir-me a um novo género de música: o rock sinfónico. E a partir de um disco extraordinário, que ainda ouço hoje com prazer - Moonmadness, dos Camel -, começou a minha loucura. 'Song Within a Song' desse disco revolucionou por completo os sons que estavam na minha cabeça.
A par com os Camel viriam os Genesis da primeira fase (outra revolução), os Pink Floyd de todas as fases, incluindo os discos com o Syd Barrett (que passaram, nessa ocasião, na íntegra num programa da Rádio Marginal, quando ela ainda era pirata, sugeridos por mim - o que foi um grande orgulho!), os Yes, King Crimson, Gentle Giant (ódio de estimação e chacota de muitos dos meus amigos com ouvidos menos sensíveis para música medieval), Jethro Tull, Van Der Graaf Generator, Barclay James Harvest, Moody Blues, Emerson, Lake & Palmer, Marillion, Soft Machine, e muitos outros mais ou menos obscuros. Lembro-me de fazer um caderninho onde conservava, como a ajuda do Arnaldo, toda a discografia de cada um destes grupos, com as várias formações das bandas... o tempo que eu perdi a catalogar todas estas coisas...
No final dos anos 80, eu estava já quase desiludido com tudo. Com a escola, o governo, o ambiente em casa, e a música entrava num beco sem saída. Precisava de qualquer coisa de radical, urgente. E não é que apareceu? Foi o jazz, ou melhor, os concertos na Festa do Avante a ver grupos de jazz-rock da antiga URSS, como os Allegro, por exemplo, que me levaram a, não só, ouvir jazz, como a apreciar músicas alternativas, desde que não houvesse a merda das baterias electrónicas a fazerem "ptcha! ptcha!", tudo bem. Foi por esta altura que me deparei com mais um disco que mudaria mais uma vez a minha cultura musical. Tratou-se de Live in New York de Frank Zappa, e em especial, o tema 'Titties & Beer' que eu rapidamente absorvi como uma esponja. Em breve seria todo o disco. Algumas semanas mais tarde estava na Feira da Ladra a comprar tudo o que pudesse dele. O disco seguinte foi One Size Fits All, e pronto, estava rendido.
Descobriria o jazz mais a fundo logo a seguir. Os primeiros discos de que me lembro de venerar seriam Black Codes e Standards vol. 1 de Wynton Marsalis.
Daí para cá, aprendi a tocar guitarra e baixo, comprei um piano assim que pude, frequentei o Hot Clube de Portugal durante pouco tempo (o suficiente para saber os rudimentos do jazz) e descobri alguma música clássica que me interessa verdadeiramente: Stravinsky, Nono, Ligeti, Beethoven, Bartók.
A música, para mim, é tão importante como o ar. Sem ela a vida na terra seria bem mais triste.
Por tudo isto a minha lista fica assim:
1. How Deep is Your Love - Bee Gees
2. Canary in A Coalmine - The Police
3. Don't Stop Me Now - Queen
4. A Rapariguinha do Shopping - Rui Veloso
5. Song Within a Song - Camel
6. Titties & Beer - Frank Zappa
7. Cherokee - Wynton Marsalis