WEBERN E STRAVINSKYZappa levou uma cópia de “Angel in My Life” a Mr. Kavelman, o professor da banda da Escola Superior de Mission Bay, e perguntou-lhe por que é que aquilo era tão bom – “quartas paralelas”, foi a resposta.

Também foi Kavelman que lhe falou da música dodecafónica e de Anton Webern. O último tornou-se uma das suas preferências. A música dispersa e repentina de Webern, que associa acontecimentos musicais após consideração intensa sobre timbres contrastantes de determinados instrumentos, estava mais perto das preocupações de Zappa que a outra música da segunda escola vienense (o encordoamento linear de Arnold Shoenberg ou o emocionalismo mahleriano de
Alban Berg). Ele descobriu um disco de Anton Webern da etiqueta de jazz da Costa Oeste, a Dial, com capa de David Stone Martin (o artista que definiu o “visual” do jazz no final dos anos 40 e princípio dos anos 50 – uma versão caricatural de
Joan Miró, linhas finas a lembrar arames e ovais).
Zappa fermentava aqui a sua versão refinada de música da costa Oeste, desprezando os limites convencionais e assumindo a sua propensão para a complexidade barroca. As figuras mais parecidas talvez sejam
Philip K. Dick, que combinava a paixão por música clássica com a sua carreira a escrever ficção científica, ou
Phil Lesh, baixista dos
Grateful Dead, que financiava composições orquestrais modernas. O próprio Zappa nega sempre qualquer “cena” para além da família mais próxima e dos músicos que contrata, mas a magistral escala dos seus interesses e arte é, apesar de tudo e essencialmente, da costa Oeste. Em Nova Iorque, em comparação, era só
angst, ego e competição.
A Sagração da Primavera de Igor Stravinsky foi uma revelação para Zappa. Embora tenha afirmado mais tarde que “Stravinsky é apenas uma versão maior e melhor de
Rimsky-Korsakov”, os ritmos triturados de Stravinky deram ao compositor de rock mais uma chave para as suas orquestrações: onde Varèse consegue choque, Stravinsky atinge esplendor. As texturas ricas de
Hot Rats devem muito a Stravinsky (e a Rimsky-Korsakov). “Igor’s Boogie” de
Burnt Weenie Sandwich é um piscar de olho a Stravinsky (assim como um trocadilho do nome do compositor com o nome do pajem do Dr. Frankenstein). “Transylvania Boogie” de
Chunga’s Revenge relaciona o rock a
Béla Bartók (que nasceu na Transilvânia e fez viagens para transcrever melodias ciganas) ao adoptar uma batida popular da Europa de Leste. Tanto Bartók como Stravinsky aprenderam com a música folclórica. A existência de folclore europeu mesclado no jazz –
Western Swing,
Joe Venuti,
Stephane Grappelli,
Stuff Smith,
Ray Nance – significa que tanto o swing como a música clássica têm fontes comuns. O desenvolvimento do R&B era resultado de uma recusa da orquestra de swing e a aceitação do uso da electricidade (baixo e guitarra eléctrica) para se adaptar a grupos mais reduzidos:
Johnny Otis é chamado o “Padrinho do R&B”

porque foi o primeiro a explorar este desenvolvimento. Zappa achou os violinistas
Sugarcane Harris,
Jean-Luc Ponty e
L. Shankar especialmente úteis: representavam uma tradição que continha elementos de folclore, música clássica, jazz e blues. A ambivalência do violino como instrumento de género não-definido foi útil para a terceira corrente de Zappa.
O uso dos mesmos elementos noutros sítios confirma a lógica do uso dos instrumentos de cordas na música de Zappa.
Pinski Zoo, o conjunto de Nottingham de características improvisatórias, combina o interesse do líder Jan Kopinski na mistura de folclore polaco e música clássica com funk. Em
Pinski Zoo 7 eles juntam violoncelo, viola e saxofone ao quarteto e fazem uso de uma loucura boémia camponesa reminiscente de Zappa. Os
Universal Congress Of, apesar de virem de Los Angeles, parecem alheios à música de Zappa – embora tenham gravado uma faixa chamada “Igor’s Blues” que tanto musicalmente como no título ecoa a música de Zappa. Tanto os Pinski Zoo como os UCO descendem mais de
Ornette Coleman do que de Zappa (através de Ian Underwood, Ornette Coleman foi influência oculta em
Hot Rats), mas o que é interessante é o modo como a necessidade de ritmos propulsivos e interesses harmónicos os fez usar elementos similares aos de Stravinsky. Zappa viu algo na barbaridade exótica “oriental” de Stravinsky que correspondia a alguns elementos do R&B.