Ao contrário daquilo que os Gato Fedorento diziam, todas as semanas se passam muitas coisas em Portugal. Nada de extraordinário, porém. Sempre as mesmas: lutas intestinas entre as duas facções de ruptura da sociedade portuguesa: a dita “esquerda” e a dita “direita”; corrupção generalizada, falta de objectivos do governo, justiça injusta, eleições ad hoc.
Mas uma das coisas que mais me faz pensar neste estado quase caótico é a desigualdade existente entre os mais pobres e os mais ricos. Mais do que pensar em exploração este facto faz-me pensar na falta de solidariedade e falta de sentido de Estado na nossa sociedade. Quando uma comunidade deixa que este fosso se cave cada vez mais, quer dizer que as pessoas estão longe umas das outras e não comunicam suficientemente de modo a travar o isolamento.
Estou convencido de que a responsabilidade deste estado de coisas se deve à ignorância e a vários factores históricos. A ignorância fomenta misticismos e isolamentos, é da ignorância que se alimentam os governos autoritários e as religiões. Mas, atenção, a ignorância não quer dizer apenas incultura, quer dizer falta de curiosidade, incapacidade de comunicação, egoísmo, consumismo desenfreado.
Um dos factores históricos que identifico para o estado de coisas é o facto de o país (na faixa etária dos 40/50 anos) ainda se encontrar dividido pelo pós 25 de Abril. Esta faixa não é de menosprezar, porque a maior parte das pessoas que estão no poder têm esta idade e governam de acordo com os seus preconceitos redutores e fraccionários.
Uma coisa que ilustra o que digo tem a ver com o facto de Salazar e Cunhal terem estado entre os dois grandes portugueses mais votados do concurso da RTP1. Sabendo que representam duas visões antagónicas de pensar o mundo e Portugal, podemos concluir, de alguma maneira, que o país não se pode encontrar mais dividido.
O outro factor histórico tem a ver com as ex-colónias. Após o 25 de Abril Portugal foi invadido por portugueses vindos de África que trouxeram consigo um estilo de vida e uma concepção de portugalidade que obrigatoriamente não eram os mesmos que as pessoas que sempre viveram em Portugal.
Para sintetizar de grosso modo, os portugueses da ex-colónias viviam de modo geral bem, ocupando nessas comunidades cargos acima da média. Portugal continental era o inverso. Ao contrário de uma burguesia endinheirada minoritária em Lisboa e Porto, o resto do país sobrevivia no meio da indigência e da pobreza, marcado por 60 anos de ignorância e ditadura fascista.
É do encontro destas duas facções que nasce o Portugal pós 25 de Abril. Por um lado, os portugueses das ex-colónias vêm para Portugal e tentam reproduzir o estilo de vida que tinham (caracterizado hoje em dia pela abundância de jipes que vemos nas nossas estradas) e o resto do país liberto da ditadura, que sentiu que ascendeu a um novo patamar e constitui, hoje em dia, a maioria da nossa classe média, os chamados novos-ricos (caracterizados pela ignorância e a avidez de consumo).
Portugal só conseguirá desenvolver-se e criar um comunidade que lute por objectivos comuns quando estas duas facções fizerem um acto de contrição (à boa maneira católica) e tentarem encontrar no OUTRO um motivo para serem mais responsáveis, modernos e inteligentes.