Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 14:51

Dom, 31/08/08

A CONTINUIDADE CONCEPTUAL E OS FÃS

A retórica da ‘continuidade conceptual’ de Zappa gera especulações criativas e intensa desilusão entre os fãs. Por exemplo, David Pilcher escreveu à revista T’Mershi Duween,* mostrando as ligações que tinha encontrado no escritor de ficção científica Kurt Vonnegut Jnr: em Slapstick Or Lonesome No More (1976) há personagens chamadas Vera Chipmunk-5 Zappa e Lee Razorclam-13 Zappa; em Palm Sunday (1981) é revelado que ‘(1) Ele fuma cigarros Pall Mall uns atrás dos outros (Zappa só fumava Pall Mall ou Winston). (2) Ele é dono de um pequeno e despenteado cão chamado Pumpkin que está sempre a ladrar (barking)”. Assustador, não?
Mais assustador fica quando, em 1981, Zappa chama à sua editora Barking Pumpkin Records. Pilcher continua: ‘Na contracapa da edição de capa dura do seu último livro, Bluebeard (1987), Vonnegut não está muito longe da capa de Jazz From Hell. De facto, até podia ser uma imagem de uma incarnação mais velha de Zappa!...’
Tal análise obsessiva de sinais e pistas é uma resposta neurótica à cultura de massas: a transformação do consumidor em coleccionador. Tradicionalmente, a alegria do coleccionador para com o objecto é um sinal de alta apreciação artística. Os produtos produzidos em massa são raramente catalogados com o alto zelo de definição que leva os negociantes de livros em segunda mão a descreverem as manchas de cola de determinados volumes do seu catálogo. Mas às vezes são. Aqui, a zappologia aproxima-se do mundo dos coleccionadores da revista Record Collector, onde os objectos produzidos em massa aspiram a um estatuto artístico, fazendo brotar auras à la Benjamin. O completismo, uma palavra do rock que descreve a tentativa para definir o universo, ao coleccionar todos os lançamentos de um determinado artista, é normalmente uma desculpa usada pelos coleccionadores para justificar a compra de lixo a altos preços; mas também pode ser uma espécie de materialismo. Ao dirigir a atenção para as evidências materiais – a edição de capa dura de Vonnegut, a capa de Jazz From Hell – Pilcher dirige a atenção da ideologia do ‘autor’ para os objectos em si mesmos. Claro, podemos ver sempre o autor como juiz dos próprios significados. Deste modo, a interpretação torna-se apenas outro conjunto de entrevistas, como se os rios de entrevistas que Zappa deu desde o início da carreira fossem a “chave” do seu trabalho (e se são, para quê então preocuparmo-nos com os discos? Vamos directamente à fonte!) enquanto, de facto, servem apenas para ‘complicar de modo significativo’ o projecto-objecto.
Um dos aforismos do criticismo estruturalista, tal como é proposto por Roland Barthes, é de que a análise se deve focar no texto. Os críticos mostram como uma imagem sentimental de ‘Van Gogh o louco’ limita a possibilidade de significados dos quadros de Van Gogh, obstruindo uma análise materialista objectiva da própria arte: tudo é feito para ilustrar a noção mística de ‘personalidade’. Da mesma maneira, a psicoanálise freudiana mantém que as pessoas nem sempre compreendem todas as repercussões do que dizem. Não serve de nada consultar simplesmente o artista para descobrir o que é que a sua arte ‘quer dizer’. Isto reconhece que a arte se torna um bem de consumo: assim que entra no mercado, o objecto artístico fica fora de controlo do artista, e pode ser usado de várias maneiras. A arte é tanto um exemplo do trabalho alienante como qualquer outro produto do capitalismo. Os métodos, tanto de Freud como de Marx, questionam a ideia de que a arte pode ser explicada se nos referirmos única e simplesmente à intenção consciente do artista.
Como isso se adequa à natureza hagiográfica das revistas de fãs, os editores da Society Pages* interrogam incessantemente Zappa sobre o ‘significado’ de cada peça do puzzle. Contudo, embora a curto prazo isto pareça ‘clarificar’ as persistentes dúvidas, este movimento acumula apenas mais versões, mais complexidades. Zappa disse na TV que a Barking Pumpkin deve o seu nome a Gail e à horrível tosse que ela tem por fumar Marlboro, mas a ressonância do nome não termina aí. Pumpkin é a alcunha de Gail, certo, mas no logotipo vê-se uma abóbora (pumpkin) de Halloween a ladrar (barking) a um gato (que responde ‘Merda Sagrada!’ (Holy Shit!), transcrito em caracteres chineses)*. Isto figura de acordo com o esquema de Zappa de ter um símbolo de resíduos pagãos a ofender um respeitável animal doméstico. As dialécticas negativas das habilidades do caniche desvelam estes significados sem terem em conta o diz-que-disse das fontes.
Alguns fãs sofrem uma irremediável desilusão quando se apercebem que o trabalho artístico não se resolve subitamente num todo, tal como Zappa promete.
‘Consumi’ apaixonadamente, durante anos, vastas quantidades de material do Frank, absorvendo-as tanto quanto possível, na vaga esperança de que um dia ia reconhecer a sua lendária ‘Continuidade Conceptual’. Finalmente, depois deste tempo todo a ouvir o material e a acarinhar e fetichizar as capas dos discos, acho que... as teorias foram desenvolvidas para manipular o negócio da música (com quem Frank tem brincado desde o início), levando-nos a crer que Frank está num plano mais elevado que o resto da indústria da música, e que por isso deve ser tido em mais consideração (i.e. na cobertura e publicidade)... o Frank está a dar-nos a treta.
A ‘Continuidade Conceptual’ também pode servir como termo para a rede de associações subjacentes que, durante os anos, as pessoas usam para se exprimir – a rede de significados revelados, por exemplo, nas notas de roda-pé de Samuel Taylor Coleridge, que mostra ligações irracionais a palavras que aparecem em sítios chave nos seus poemas –, mas aquilo que torna modernista é o uso que Zappa faz desta rede consciente. Não se pode abordar Zappa como se se abordasse André Gide ou Sting, absorvendo a arte e imaginando uma qualquer completa personalidade. Tem de se lidar com ela como se lida com Finnegans Wake, seguindo activamente imagens e ligações à medida que elas emergem à superfície do material. Trata-se de arte moderna que não se pode abordar à maneira antiga.

* Fanzines sobre Zappa.