Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 23:53

Qua, 16/04/08

Diz-se que a violência gera violência
Que o homem violento vive atado a uma roda
Que a luta para se libertar faz girar a roda
E ele faz o pino todos os dias
Existem três sons no mundo
A pedra a partir
As correntes a arrastar na pedra
E os rugidos do homem

Se isto é verdade, o estado deve fazer uma revolução ou uma guerra
O estado é quem mais usa a força
Quando a roda gira o estado cria mais violência
Só que o estado não usa a força de maneira violenta
Tem padres, professores e juízes
Não há pesadelo
Nenhuma dança de guerra que assuste as crianças — uma máscara diabólica de boca vermelha a bailar na ponta de um pau
Nenhum fantoche vestido de ganga, capacete e arma
Que mate como uma criança a brincar com barro
E faça a roda parar

Pensem bem
O juiz mais escrupuloso pondera a lei com mão imparcial,
Manda um homem dez anos para a prisão com bons modos
Ou diz ‘Vai,
Tens a oportunidade de seres bom trabalhador e viveres de acordo com a lei,
Boa sorte’
A última opção é mais violenta que a primeira
Condena o homem a dar a sua vida ao juiz
Ele ensina ao filho que o juiz teve razão em mandar o pai para a prisão
Respeita a escola que o juiz fez
Constrói paredes à volta da sua casa e protege o saque do juiz
Corre todas as manhãs para o trabalho, faz armas para o juiz disparar na praça
Aprende a morrer em casa ou a matar na do vizinho
Ou pior, vive dia após dia calmamente
E assim, o juiz concede uma piedade mais severa que a própria prisão

Tudo seria justificado se em vez de violência houvesse ordem
A roda parava
Não é assim
Aquilo que impede o homem de se conhecer é em si mesmo violento e é a própria causa da violência
Como pode um homem conhecer-se?
Ele que saiba o que é e aquilo que faz

Pensem,
À esquina da uma rua, um homem em liberdade
Dá a mão a um homem nunca visto
Louco há vinte anos, este homem
Deitaram-no velho ao pé de uma parede húmida com o filho morto no bolso
O coração ainda bate, expulsa apenas vida pelas feridas
Demasiado fraco para as estancar ou pedir ajuda
Quem é o homem desconhecido que traz pela mão?
Ele próprio
Se o espírito tivesse forma humana ele seria assim
São coisas feitas pelo juiz que disse misericórdia
Feridas de paz
— A violência da liberdade —
Mais amargas que a fome
Mais cruéis que a guerra
Mais mortíferas que a peste
Não se vêem
Escondem-se dentro da cabeça como se a cabeça fosse uma pedra que escondesse a verdade
Num mundo destes não há paz
O homem sai do tribunal em liberdade
A estação de difusão das bibliotecas universitárias é uma prisão
A rua é a galeria de uma prisão
As casas da rua são celas de uma prisão

Dizem que a violência gera violência
O argumento prova que o estado deve criar uma revolução ou uma guerra
Padres, porque rezais ao deus da guerra a pedir paz?
Actores, porque dançais no templo da razão?
A violência gerará violência até os homens se conhecerem,
Saberem onde estão e aquilo que fazem
E conhecerem os julgamentos e a piedade
Até lá a prisão mais forte é a liberdade
Poucos escapam pelas paredes
Nela vivemos de pernas para o ar
Tal como quando caminhamos na rua

Edward Bond
tradução: minha