
Um homem deambula por uma rua de Marrocos, à noite. Ele não conhece a cidade. Por isso, aos grupos de jovens que vê, chama-lhes gangs. Um deles passa por ele. Veste um fato preto. Pára à frente dele, vira-se e barra-lhe o caminho. O homem do fato preto pergunta-lhe, ‘Quer que eu o mate?’ Não está nem zangado nem é violento. Como se o quisesse realmente ajudar. Claro, o outro homem desvia-se dele e apressa o passo. Mas o homem de fato negro segue-o. Ultrapassa-o mais uma vez, pára, vira-se, barra-lhe o caminho e, aparentemente, sem qualquer ofensa pergunta, ‘Quer que eu o mate?’ O homem apressa o passo mais uma vez. Não corre porque tem medo de chamar a atenção. É muito provável que alguns dos jovens dos gangs venham ajudar o homem do fato preto. O homem segue-o uma terceira vez, ultrapassa-o, pára, vira-se, barra-lhe o caminho e faz a pergunta. O homem apressa o passo. Mas desta vez o homem do fato preto não o segue e o homem chega são e salvo ao hotel.
Quando me contaram esta história eu estava com uns amigos. Começaram a tentar explicá-la. Talvez ‘matar’ fosse um código. Talvez significasse ‘Queres drogas?’ Talvez o homem do fato preto fosse homossexual e tivesse dito "beije" em vez de "mate" e o outro tivesse ouvido mal porque estava tenso. Talvez fosse um local especial para convites. Talvez significasse uma visita a uns certos bordéis. Talvez a morte fosse simbólica. Ou uma fantasia. Talvez o outro homem tivesse mesmo compreendido mal. E por aí adiante. Para mim, estas explicações estragaram a história. Explicavam-na mas não lhe davam significado. Suponham que a palavra foi mal ouvida ou mal compreendida — e depois? O facto é que o homem podia andar na rua e acreditar ter ouvido tal palavra. Talvez isto diga mais, não sobre Marrocos, mas sobre Manchester ou Chicago. O que é interessante é que o mistério da história projecta muita luz na realidade. Devemos evitar confusões e misticismos, mas isso não significa que as histórias não devam formar os seus próprios significados.
Edward Bond, Fables
Creio que, como se trata aqui da reacção do dramaturgo britânico a uma experiência pessoal e nada pode ser compreendido fora do seu contexto, o “mistério da história” só poderá ser bem entendido pelos que conhecem a obra e a vida deste escritor. Não é o meu caso, pelo que assumo a minha ignorância nesta matéria. E só o faço porque, parece, todos os demais leitores deste blogue são de uma erudição extraordinária. ;-)