Faz cinquenta anos que Orson Welles realizou
Touch of Evil. Com Charlton Heston (Ramon Miguel Vargas), Janet Leigh (Susan Vargas) e Orson Welles (Hank Quilan) nos papéis principais. É um filme chamado
noir que envolve polícias corruptos (ou nem por isso), passadores de droga perigosos (ou nem por isso), detectives perspicazes (ou nem por isso).
O filme, quase todo passado durante a noite, começa com a famosa sequência inicial de alguém a pôr uma bomba relógio na bagageira de um carro que de seguida atravessa a fronteira entre os E.U.A. e o México. A bomba acaba por rebentar do lado americano da fronteira. O incidente faz nascer toda uma rede de interesses e suspeitas de ambos os lados. Ocasião para Welles fazer considerações sobre racismo, sexo, droga e justiça.

Talvez tenha sido esta concatenação de temas sensíveis que fez com que a produtora pedisse a Welles para filmar mais algumas cenas e cortar outras tantas. O filme seguiria assim até 1998 quando foi feita uma montagem de acordo com uma nota de 58 páginas do próprio realizador onde ele especificava a montagem ideal do filme.
O filme conta com a memorável interpretação de Orson Welles no papel do polícia Quilan que tenta implicar no atentado bombista inicial um jovem mexicano. O polícia do narcotráfico mexicano Ramon Miguel Vargas (Charlton Heston) não está completamente convencido de que tenha sido esse o rapaz e depois de ter percebido que Quilan o tentou incriminar colocando dois paus de dinamite numa caixa de sapatos, quando o próprio acidentalmente tinha percebido que a caixa estava vazia dez minutos antes, as suas suspeitas tornam-se fundamentadas e inicia-se uma guerra que atravessa fronteiras.

O filme é uma obra-prima do uso da câmara para gerar sentimentos, para controlar intensidades, memoráveis os planos de baixo para filmar um Welles obeso, coxo, que murmura as palavras num jeito que não pode deixar de lembrar Marlon Brando. A música de Henri Mancini num estilo pós-ellington, com congas e secções de metais para as cenas de mais acção e misteriosas melodias para as cenas mais introspectivas. A iluminação é genial. As sombras, os planos entrecortados, as passagens de cenas, tudo é pensado até ao mais ínfimo pormenor, criando assim um filme memorável, onde cada plano conta, onde a genialidade dos diálogos afirma uma estranha sedução pelo contraditório, pelo duplo sentido, onde apesar de toda a escuridão do filme, há lugar para o humor e a vida.
De assinalar o pequeno papel de Marlene Dietrich numa espécie de 'Magic Mama' (esta é para fazer ligação conceptual com o disco de Zappa
Overnite Sensation), que deita cartas Tarot. Uma mulher fria e desbragadamente honesta, com uma cigarrilha sempre ao canto da boca que funciona como refúgio moral tanto do filme como da personagem principal que a ela recorre sempre que as coisas estão mal. Num dos diálogos mais brilhantes Quilan pede que ela lhe leia o futuro nas cartas, ela responde "Já não tens mais futuro para gastar. Por que é que não vais para casa?"
É também ela que no final verá Quilan a flutuar num lago cheio de água preta de petróleo no meio da noite, a afundar-se e dirá "Era um bom homem. Mas o que é que interessa aquilo que pensamos das pessoas? Adios."
Um filme onde a verdade e a mentira andam de mãos dadas tal como o preto e o branco em que é filmado. Um filme de contrastes e talvez por isso mesmo, profundamente humano.