Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 01:46

Dom, 30/12/07

Num dia quente de Verão
Terroristas mataram um soldado
Este estendido, na rua
Escorria sangue do uniforme khaki
Um bebé a sujar as cuecas
Coberto pelo lençol branco limpo
Dezanove anos; saudável até à morte
Um buraco na cabeça
Boca escancarada — não falava
Portanto, todos disseram o que havia de se dizer

Animais suspirou o PM
Escumalha vociferou a oposição
Cobardes rugiu o coronel
Só o homem morto mudo
Apresentadores de televisão ofendidos
Casa Real comovida
Numa parede do bairro um assassino rabiscou
Cortem-nos aos bocados e dêem-nos a comer aos porcos — o enforcamento é pouco para eles
A imprensa sensacionalista com um furo
Cada gabinete ministerial jurou
Dar até a última gota de sangue do povo
O exército gritou mais mais mais
Malta não gastem a vida com dádivas
Venham buscar arma e boina
É a carreira no exército dentro dum buraco malta
São divertidos os funerais

O negócio funerário vai bem
A libra circula
As lojas de flores vão bem
As escavadoras mecânicas abrem céleres os buracos
Finalmente descobri um objectivo de vida
Enfiar colegas debaixo do chão
Sempre com lençóis limpos e brancos prontos a usar
À sepultura a guarda de honra dispara
Caga tijolos — podiam ser eles lá em baixo — mas que ar corajoso
O chamamento da trombeta soa enorme
Nada como um funeral militar
Para erguer espíritos da terra
Preços a subir — é pegar ou largar
Segue o teu destino com um sorriso amarelo

Deves morrer sem perguntar porquê
Nós tomamos conta dos teus
Damos dinheiro para lhes aliviar a dor
Deitamos terra para cima dos teus restos mortais com uma pá de ferro
Fingimos que a terra é o céu
E à noite, enquanto repousas e apodreces na sepultura,
Nas filas de mortos silenciosos,
A nação que disse o que havia de se dizer,
Tapa a cabeça com lençóis limpos e brancos
Dorme em paz na cama
Mais mais mais
Pega em arma e boina
São divertidos os funerais

Edward Bond, Jackets.


woody @ 20:05

Seg, 31/12/07

 

Caro Pedro,
hoje encerrei o meu Dezembro Frank Zappa, lá no blog Boogie Woody, gostaria de agradecer pelo empréstimo do texto e avisá-lo que coloquei um link caprichado para o Fora de Cena.

Grande abraço e feliz ano novo!
WOODY

Anónimo @ 23:14

Seg, 31/12/07

 

Muito obrigado Woody.
Todos somos poucos para divulgar o trabalho do Frank.
Um grande abraço e um óptimo 2008!