KING KONG
Ponty e Duke eram as grandes novidades da Costa Oeste. Gerald Wilson, o notável arranjador de Duke Ellington dos anos 40, teve os dois em
Eternal Equinox; como de propósito, a faixa que dava o nome ao álbum era ‘Equinox’ de John Coltrane. O engenheiro Richard Bock mostrou a Zappa algumas gravações de Ponty. Zappa improvisou com Duke e Ponty no Thee Experience de Los Angeles, em Setembro, e conseguiu contratar Ponty para tocar umas notas em ‘It Must be a Camel’ de
Hot Rats. O duo vendia consideravelmente bem, gravou seis álbuns consecutivos. Zappa sugeriu-lhes um projecto e, com o nome de Ponty, conseguiu realizar algumas composições sérias felizes no disco
King Kong. Apesar de chamar ao tema principal, ‘Music for Electric Violin and Low Budget Orchestra’, depois do pedido para uma orquestra de noventa-e-sete elementos ter sido recusado, as coisas não estavam tão mal economicamente. Buell Neidlinger, o baixista que ganhou nome com Cecil Taylor, voou de Boston como ‘o único homem que consegue tocar a parte do baixo na peça mais longa’ (evidentemente muito para além das capacidades rock de Jeff Simmons). Conhecidos pelas suas declarações corrosivas de uma proposta de brancos para uma ‘revolução negra no jazz’, esperava-se as gravações caseiras da dupla Zappa-Neidlinger com impaciência. Um deceto conduzido por Ian Underwood acompanhava Ponty. Inicia com uma secção que vem da música de ‘marcha’ da
História do Soldado de Stravinsky, o fagote de Donald Christlieb a tocar o ostinato irregular característico. Zappa leva as ornamentações a um extremo ridículo e orquestra momentos como os de ‘Eric Dolphy Memorial Barbecue’, só que em instrumentos acústicos. ‘Duke of Prunes’ é o tema principal de um conjunto de variações. Em ‘Idiot Bastard Son’, no lado um, a melodia ébria e debilitante é ideal para o som de Ponty. Tanto o compositor como o músico parecem estar a vingar-se do conformismo tonal da academia. Com atenção, ignorando o brilho da banda desenhada, o ouvinte consegue identificar muitas das ideias de ‘The Adventures of Greggery Peccary’. As manchas caóticas são maravilhosamente bem orquestradas, típicos momentos zappianos que transcendem a distinção entre abstracção de vanguarda e efeitos sonoros humorísticos (o humor de ‘America Drinks and Goes Home’ é ainda mais abrangente – uma piada musical de ir às lágrimas). Com este arranjo, ‘The Legend of the Golden Arches’ de
Uncle Meat fica mais próximo de Stravinsky. Quando as peças jazzistas de Stravinsky são refreadas pela pusilaminidade clássica dos intérpretes, Zappa faz uso das faculdades extra-clássicas dos seus músicos, especialmente do balanço do piano fats walleriano de George Duke que brinca nas estranhas harmonias de Zappa com um júbilo de professor-de-piano.
‘King Kong’, ‘Idiot Bastard Son’ e ‘Twenty Small Cigars’ são arranjados jazzisticamente, com solos do tenor resfolegante de Ian Underwood no primeiro tema e joviais introduções de Ernie Watts nos outros. As notas são do alegre Leonard Feather, e dão-nos a incoerência sedutora de alguém que tenta ver uma sessão de gravação de Zappa como um ‘encontro jazzístico’. Credibiliza Zappa ao mencionar as gravações do fagotista Don Christlieb a interpretar Karlheinz Stockhausen. Em ‘How Would I Like to Have a Head Like That’ de Ponty, Zappa é convidado a tocar guitarra com um som tão processado que, apesar de reproduzir algumas malhas do solo de ‘Willie the Pimp’, soa como se estivesse num planeta diferente dos outros músicos.