Há cerca de uns dois meses tive a oportunidade de ir a Alcobaça em trabalho e num intervalo, à espera da camioneta que havia de me trazer de volta a Lisboa, tive tempo para ir ver os túmulos de D. Inês de Castro e D. Pedro que jazem no Mosteiro.
Na altura tirei bastantes fotografias que morreram no meu telemóvel no dia em que um infeliz carteirista me tentou assaltar no Cais do Sodré. Com a confusão corri, o telemóvel saltou da minha bolsa e estatelou-se no chão para nunca mais acordar. Felizmente que tinha feito um
backup de números há muito pouco tempo. Mas foram as fotografias o que mais me custou perder.
Seja como for, fiquei impressionado com o
Mosteiro, que já não via há cerca de 30 anos, ou seja, que nunca "vira" realmente. Para além dos dois túmulos que foram profanados e vandalizados pela soldadesca napoleónica aquando das invasões francesas do séc XIX, o mosteiro encontra-se praticamente vazio de ornamentos, resultado da pilhagem a que foi sujeito na mesma ocasião. Contudo, a arquitectura manteve-se e, tragicamente, como se fosse de propósito, torna mais belos os leitos dos monarcas. À volta dos dois túmulos não há nada senão branco. As ogivas que se elevam e prolongam guardam nelas a perfeição da forma e em redor só o silêncio.
Vagueei de um sepulcro para o outro a tirar fotografias, siderado com a perfeição e realismo, como se esperasse que eles ganhassem vida e me explicassem o que fôra o seu amor. O que era morrer por amor. Como se a pedra branca e silente me pudesse falar.
Eu sabia que não. Sabia que o perfil de D. Pedro não se moveria nem um milímetro com o desespero das minhas perguntas. Sabia que nem as lágrimas que eu vertia devolveriam a D. Inês o nariz que algum franciú levou para casa há cerca de 200 anos. Mas nenhuma imperfeição, nenhum entalhe violado, nenhum baixo relevo destruído me podia deter na minha busca de respostas. O telemóvel fazia tchlik, tchlik.
Na segunda vez que fui a Alcobaça, quinze dias depois, na viagem para Lisboa, desta vez de carro, descobri a resposta. A 170 km por hora deixei de ter medo da velocidade e dei por mim a fechar os olhos e a recostar-me no assento. Era um sentimento de paz. O sentimento do sublime tal como Kant o descreveu. Primeiro o terror imenso e o pânico, e depois uma paz libertadora, um sentido do infinito, uma elevação da memória à categoria de pedra branca e silente.