Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 02:33

Dom, 08/07/07

MÍSTICA PESSOAL

Freak Out! também promoveu a mística de Zappa. Na capa do disco, vestido com um casaco de pele esfarrapado – o mesmo que fez Pamela Zarubica chamar-lhe “Omar” (por causa de Omar Sharif) – ele tem um ar misterioso. No disco diz-se que é presença ocasional nos concertos dos Mothers (completa invenção):
As apresentações com o grupo são raras. A sua personalidade é tão repugnante que é melhor manter-se à parte... tendo em consideração mentes mais impressionáveis que possam não estar preparadas para o enfrentar. Quando aparece, toca guitarra. Às vezes canta. Às vezes fala com o público. Às vezes há sarilhos.
Esta ameaça de violência é, precisamente, o mesmo esquema que, dez anos mais tarde, fez toda a gente aderir ao punk. Os catequistas do rock lembram normalmente Zappa por duas razões: primeira – comer merda em palco –, e segundo, – um poster que o mostra nu, sentado numa sanita. Negou sempre comer merda em palco (começa o The Real Frank Zappa Book fazendo-o) e o poster foi, ao que parece, operação pirata de uma fotografia tirada num hotel londrino por um fotógrafo não contratado. As pessoas parecem precisar de uma biografia estranha para explicar a razão para a música de Zappa ser tão estranha, e a escatologia encaixa no contexto. A “groupie internacional” Dr. G. repetiu os mesmos rumores na Oz.
Pensava duas vezes antes de o contratar, o Ed Sanders disse-me que tem a mesma perversão que Tyrone Power em Hollywood Babylon e, ainda por cima, disseram-me que gosta de merda! Por amor de Deus, como é que se consegue acreditar nessa? Não acredito. Se calhar é para assustar todos os que não são corajosos e inteligentes.
Improvável, contudo o rumor, é verdade, tem o seu simbolismo: materialismo e escatologia são duas coisas próximas. Freud projectou paralelismos entre o cálculo financeiro e a retenção anal; Norman O. Brown estabelece relações entre a ética do trabalho cumulativo protestante e os problemas intestinais de Martin Luther; para Gustave Courbet, o pintor socialista francês do princípio do século XIX, o peso e o sentimento de massa eram críticas à arte aristocrata superficial: colocou frequentemente grandes excrescências castanhas nas pinturas. Em Uncle Meat, “The Voice of Cheese” (Pamela Zarubica) prolonga o misticismo, fala do seu “estatuto de groupie” e refere-se à casa “que tinha merda tua por todo o lado”.
Zappa tem talento para criar uma paranóia de lascívia, um medo de que se esteja a referir a experiências que são normalmente negadas ao tipo vulgar. Isto é precisamente a razão para as drogas serem muito difundidas, mas o uso tende a diminuir a capacidade concreta do artista – daí o desprezo de Zappa para com elas. A arte fomentada pelas drogas, desde a melosa sub-art nouveau dos gráficos, até aos meandros do country-rock dos Grateful Dead, tem sido sempre fraca e desajeitada. A mística de Zappa é criação sua, faz parte da macro-estrutura de produção e da sua vingança. Quando Pamela Miller (Menina Pamela das GTO’s) visitou a família Zappa pela primeira vez ficou fascinada porque tudo era normal.
A Gail saiu da cozinha e tentou não ficar parada a olhar. Perguntou-nos se queríamos uma chávena de chá: oh, era tão civilizado. O cenário mudou instantaneamente a minha concepção sobre a vida doméstica: podias ser rebelde, um pensador profundo, ter um filho e mesmo assim beberes uma agradável chávena de chá com os teus amigos.
No mesmo sentido, a hostilidade de Zappa em relação às drogas causou admiração aos que associavam a droga à subversão. Ralph Gleason, o crítico de jazz que acolheu de braços abertos o movimento hippie, atrapalhou-se quando fez a crítica a Freak Out!
Hippies de Hollywood cheios de esquemas, truques e embalagem, uma espécie de versão Sunset Boulevard dos Fugs. São daqueles tipos que mostram os músculos na praia, cuja a ideia de letra da moda é mencionar LSD ou erva três vezes em oito compassos.
Parecia muito mais fácil explicar Freak Out! referindo-se às drogas do que ter em conta as implicações de alguém a juntar Pierre Schaeffer e “Louie Louie”. Na LA Free Press de Outubro, Zappa publicou uma declaração que desassociava cautelosamente os Mothers da defesa que Carl Franzoni fez das drogas.
Carl Franzoni não faz parte dos Mothers of Invention. Nem diz que faz parte. Mas nós, na nossa maioria e como grupo, concordamos com o pedido dele para haver políticas sensatas sobre as drogas (basicamente, metam-nas pelo cu acima e voem até à lua). Nós, como grupo, não recomendamos, na verdade, repudiamos qualquer substância animal/mineral/vegetal/sintética, veículo e/ou procedimento que tenda a reduzir o corpo, a mente ou o espírito do indivíduo (qualquer verdadeiro indivíduo) a um estado de sub-consciência ou insensibilidade. Estamos aqui para vos libertarmos e não para vos viciarmos em alguma coisa. Viciem-se vós próprios. A elevação de que precisas realmente é espiritual e enganas-te se confias que um atalho químico e/ou agrícola o faça por ti. Se estiveres consciente não te conseguem vencer. Mantém a tua frieza aristocrática.
Mas Gleason tem razão num aspecto: embora não tenha tempo para consumidores de droga, Zappa está sempre bem informado sobre os pormenores do seu uso, requisito chave da sub-cultura do século vinte. A mística de Zappa centra-se na ideia de conhecimento oculto.
Nunca tentes olhar bem dentro dos meus olhos
Não ias querer saber o que eles já viram*
E a hostilidade em relação às drogas não implica de maneira nenhuma ignorância sobre os seus rituais e efeitos, como é mostrado em canções como “Pygmy Twylyte” e “Cocaine Decisions” e as introduções, nos concertos, a “Dupree’s Paradise”.
A MGM/Verve preparou uma digressão de promoção para Freak Out! e os Mothers tocaram em Washington DC, Detroit e Dallas. Anunciaram vendas de 30.000 unidades: os royalties (60 ou 70 pences por álbum) não cobriram os “vinte-e-cinco ou trinta mil dólares” que a MGM tinha gasto nas sessões de gravação. Por isso a MGM/Verve pôs à disposição um orçamento de $11.000 para o sucessor de Freak Out! (Zappa afirma que foram vendidos muito mais discos pela porta do cavalo e não foram contados). Sempre preocupado com a excelência técnica, Zappa desprezou os resultados, mas Absolutely Free é um disco espantoso. Normalmente as bandas de rock usam o primeiro conjunto de canções no disco de estreia e, por isso, enfrentam uma crise de criatividade no segundo, mas para os Mothers isto não era problema. Zappa aumentou a formação. Don Preston (teclados), Bunk Gardner (saxofones) e Billy Mundi (bateria) juntaram-se à banda e Motorhead foi promovido a “espécie de” membro (na lista, o nome vinha num tipo de letra mais pequeno). Bunk Gardner e o irmão trompetista Buzz (que mais tarde, na digressão da Primavera de 1969, fez parte dos Mothers) eram músicos de jazz. No final dos anos 50 tinham aparecido regularmente com André Hodeir em St Germain de Près.

* Don't never try to look behind my eyes / You don't wanna know what they have seen