Deitado na cama
vejo meia perna
um pé
toco-lhe
ela geme
o edredon azul
não a tapa toda
a almofada
por cima da cabeça
o pequeno quarto
cheira a pêssego
e outros líquidos
ela dorme
e agora eu
escrevo
por cima
da roupa
desfeita
no chão
a janela emoldura o céu branco
de nuvens cinzentas
são sete da manhã
o barulho do dia cresce a cada segundo
ela tosse
mais uma vez
eu suspiro com alegria
a vida esvai-se
por entre os dedos
e perpetuo este instante
agora