Já
aqui falei uma vez do António Bento, que tem um
blog. Ele foi meu amigo de infância, partilhámos os bancos da escola primária, orgulho-me disso, pelo homem que é, pai de família, desportista de alta craveira, não a das medalhas, entenda-se, mas sim a da ética. Para além disso é poeta, de alta craveira também.
Na sua poesia, à sua destemida coragem perante as agruras da vida sobrepõe-se apenas o medo da incompreensão do outro, do sofrimento do outro. É uma poesia que se resolve numa relação dialéctiva, viva, actuante, humana: "
Apenas temo a minha natureza." É tão difícil ver isto nos dias de hoje, acostumados que estamos ao pessimismo e à dúvida, à castração, à mentira. A linguagem que ele usa é isenta, mas profunda como aquele mar de outra das suas poesias do livro
Pegadas da 'Pé de Página editores': "
Mar / dimensão do nosso encontro / eternidade deste abraço / minha amiga minha flor."
Encontro-me no meio do caminho
na selva obscura do abandono a que me condeno
por entre a neblina, onde vejo o desejo e o destino
oprimidos
pelas escolhas certas feitas na primavera certa.
Procuro a força da minha natureza
a inspiração para o movimento
sem regresso, para a condenação eterna.
Não temo as feridas profundas nas mãos
que sedentas não me respondem
e investem sobre as rochas escarpadas.
Não temo a consciência, pois
na alma e no sentir do sangue
pulsa fogosa a uma só cadência.
Não temo o cume, o incerto clima do cume
o frio o fogo a luz que fere as pupilas.
Não temo nada em mim ou de mim para mim.
Apenas temo a tua tristeza,
a tarde escura que se vai abater sobre o teu sonho
o esbater do teu sorriso limpo.
Apenas temo a porta do mal que te vou abrir
empurrada pela minha natureza.
Apenas temo a ferrugem nas dobradiças
o inferno de não seres capaz de fechar essa última porta.
Apenas temo a minha natureza.
Apenas, a certeza da minha natureza incontornável.
Nas minhas mãos habitarão as feridas do teu sofrimento
calcando os sulcos dos poentes em que fomos felizes,
em que me deleitava no teu sorriso
e os dias pareciam intermináveis
assim como as vidas
assim como a dor parecia um asteróide longínquo.
Encontro-me no meio do caminho
o da busca contínua,
o que não dá tréguas às vidas que se juntam
para se separar.
Como uma nuvem que se separa em duas
e que lentamente observa a outra metade ir,
cada vez mais veloz,
apropriando-se da cadência certa direita a uma qualquer corrente tropical.
Assim nós dois
assim a vida
assim a dor
assim o sorriso.
Assim o pão
assim as manhãs frias
assim os mares e os continentes
assim a lâmina da ceifa.
Que ninguém ouse juntar o que
tem que ser separado pela natureza
das coisas.
Que ninguém ouse pensar num destino a coberto das cinzas.