Depois de desenhar mobílias e tapetes ao estilo modernista durante os anos 30, emigrar para Berlim sob a supervisão inútil do seu tio e de assumir a sua homossexualidade numa época complicada, Francis Bacon, nascido em 1909, decidiu dar mais uma vez oportunidade à sua veia artística e, durante a segunda guerra mundial, altura em que viveu em Londres, começou novamente a pintar.
É frequente verem-se, nos seus quadros, linhas geométricas, como estruturas de caixas (ou gaiolas), que envolvem as figuras. Muitas vezes as situações são desdobradas em trípticos. Tal como em Edvard Munch, o pintor procura, por aproximações, uma realidade mais real que o real, sabendo das limitações e alcance da própria pintura. As linhas que envolvem as figuras assemelham-se muitas vezes a um palco, a uma moldura, como se o artista quisesse isolar as figuras dentro do próprio quadro e assim exponenciar a sua exposição, tornando-as mais urgentes e pungentes. Em alguns dos quadros são pintadas setas que nos obrigam a destacar do quadro e a procurar nele algo mais que uma visão do real. Nos seus retratos de cabeças ou rostos podemos ver como Bacon procurava uma arte que se aproximava da fotografia. As caras aparecem sempre desfiguradas como o que acontece quando uma cabeça se mexe ao tirarmos uma foto. Neste sentido Bacon ecoa alguma da visão de Samuel Beckett que faz a sua personagem de Primeiro Amor dizer que só os mortos, com a sua imobilidade, podem ser vistos em toda a sua beleza, os vivos estão sempre a fazer caretas e não se podem fixar numa imagem única.