OVERNITE SENSATION
O rock funciona no mercado de massas, por isso conduz a criticas sociológicas e não a críticas estéticas. Do ponto de vista da vanguarda punk, os concertos de Zappa no Hammersmith Odeon no final de 1979 — cinco concertos lotados, em quatro dias — pareceram irrelevantes, mas os factos artísticos das guerras de estilos têm tendência para projectar sombras estranhas no futuro. Agora,
Overnite Sensation paira por cima da produção inconstante dos Clash, tal como Philip K. Dick o faz em relação a John Wyndham.
Murray descreveu a ‘fase de Zappa que começou em
Overnite Sensation’ como “um grupito alegre e excitado de experimentação com riffs funk e texturas heavymetal a tocar canções erráticas com poucas ideias dignas de nota e jogos de palavras elementares e irritantes”. Do ponto de vista de Murray – no seu compromisso entre os valores básicos de rock, que consegue ver ligações em Muddy Waters, os Stones, Dr. Feelgood e os Sex Pistols – esta afirmação está correcta, mas para pessoas que têm alguma noção da trajectória da civilização ocidental, ela é desadequada. Criar um documentário surrealista da vida moderna, que desafia
Finnegans Wake em termos de escala, complexidade e profundidade de referências, e situá-lo no mercado é uma afronta cultural ao mais alto nível. É um golpe nas hierarquias de valor que o moralismo, por mais bem intencionado que seja, não consegue nunca alcançar, porque o moralismo se baseia na noção de que alguns se salvam e deixam escapar a verdade para os condenados que estão mais em baixo.
Aquilo que os jornalistas de rock conseguiram mesmo – não há melhor inimigo que um discípulo traído – foi o desprezo total dos fãs da
new wave para com Zappa. Era também este o interesse do punk, claro: limpar o passado, “sem Elvis, Beatles, ou Rolling Stones em 1977”. Permitiu a muitas pessoas aproximarem-se do rock que fora afastado pelo fedor da ideologia
hippy, construindo um cenário de divisão que proporcionou toda uma paisagem de referências da conversa rock dos anos 80. Apesar da brilhante polémica anti-hippie de
We’re Only in It For the Money, Zappa foi atirado para o caixote do lixo da velha vaga, criando imensos problemas ao zappólogo que se recusava a morrer: todos os contactos entre fãs se tornaram dinossauros hippies. Ainda é assim hoje em dia. Quando a
T’Mershi Duween perguntou aos leitores para votarem naquilo que ouviam em Novembro de 1991 para além de Zappa, a única banda pós punk citada foram os Fall*. No final dos anos 70, as críticas e entrevistas com Zappa na imprensa rock inglesa (que adoptou o punk indiscriminadamente) tornaram-se nada mais que uma explosão incompreensível de insultos.
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A lista era: “Captain Beefheart, Peter Hammill/Van Der Graaf Generator, Fripp/Eno/King Crimson, Pink Floyd, The Beatles, Neil Young, Jimi Hendrix, Grateful Dead, Led Zeppelin, Miles Davis, Talknig Heads, Jethro Tull, as bandas da cena Canterbury, Yes, Van Morrison, Magma, Steve Vai, Stravinsky, Richard Thompson e Henry Cow. T’Mershi Duween, nº 23, Janeiro de 1992, pág. 17. Tal caracterização da constituição dos elementos de Zappa é tão deprimente que acho apropriado socorrermo-nos de Theodor Adorno. “Na sociologia empírica da cultura, que tem tendência para começar a partir das reacções e não a partir daquilo a que reage, a ordo rerum é ideologicamente desvirtuada e torna-se ordo idearum: na arte, o ser precede a consciência, sempre que as estruturas das forças sociais são objectificadas e por isso estão mais próximas da essência do que os reflexos a elas, os modos sociais imediatos do comportamento dos receptores.” Por outras palavras, o zappólogo não pode ser desviado pela demografia dos fãs.