Antes de ir de férias (também mereço), deixo-vos mais um pedaço das
Dialécticas Negativas. Espero que se perceba, não acompanho totalmente muitas das erudições do senhor, mas pelo menos tento. Se houver alguma coisa mais esquisita, digam.
Enquanto traduzia este pedaço, acreditem ou não, deu-se mais um encontro de continuidade conceptual à altura do mestre. Exactamente ao mesmo tempo que eu lia e traduzia o discurso, ouvia casualmente a gravação ao vivo do último disco lançado pela família Zappa:
One Shot Deal, onde o tema
Australian Yellow Snow a que Ben Watson se refere está incluído. Se isto não configura um caso de cosmologia avançada, não sei o que isso é...
VULGARIDADES ALUCINANTES, OU AS ABSTRACÇÕES DA MINÚCIA
Uma das preocupações de Zappa foi sempre a documentação de vulgaridades, encontrando na precisa perspectivação das banalidades produzidas em massa um surrealismo mais pungente que qualquer heróica auto-expressão. Por cima da cama, na capa do disco
Overnite Sensation, vemos uma cópia de Brittini que representa um estore fechado. De acordo com Zappa, as cópias de Brittini podiam ser encontradas em todos os móteis dos E.U., aparafusadas às paredes para que não fossem roubadas. A redução da arte – supostamente uma janela para um mundo melhor – a tal imagem, negação produzida em massa dessa visão, é o tipo de estratégia que associamos à vanguarda satírica. Aqui é simplesmente negócio, como de costume.
Vê-se um extintor gigante gravado com a palavra Perellis, o nome do director de estrada dos Mothers (Marty Perellis vem na lista de
Overnite Sensation creditado com ‘outras coisas’ e ‘ofensa (sem justificação)’ em
One Size Fits All). Da ponta da mangueira do extintor, nas mãos de um homem de duas cabeças (alegres/tristes como as máscaras da comédia/tragédia), escapa uma pequena gota de espuma. Na casa de banho vê-se um
spray ‘Ultra Clean’ e uma toalha de mãos suja. O sumo que escorre da toranja faz com que um multímetro deite faísca. A porcaria que sai do televisor escorre na mesa, dissolvendo um mapa da Flórida, terminando naquilo que parece ser a cavilha gigante de uma lata de cerveja. Tal como num sonho, todos estes materiais irrelevantes repetem a ideia de ejaculação.
Os pormenores não são coerentes com qualquer possível realidade que o espelho possa reflectir. A capa é toda ela uma pintura emoldurada, com uma placa a indicar o título, o pintor e a data. A própria moldura é uma brilhante apresentação de pormenores sexuais – rostos com dentes de tubarão mordem línguas (ou serão fezes?); espigas de milho enfiadas em ânus; cabeças viradas para cima a beber urina; rostos partidos de bonecas; monstros com os lábios atados: Hieronymous Bosch modelado em gelatina. Um casal olha na direcção do exterior do quadro, parecendo feliz com o que vê. A própria moldura é uma alucinação – vê-se um pedal
wah-wah, ornado pelo relâmpago da Discreet, à esquerda, em baixo. A

linha funde-se ilogicamente noutra unidade electrónica, com mais interruptores e botões desenhados numa escala irrealista. Tudo é um sonho. Vê-se o manager Herb Cohen que surge através do chão do estúdio, como se fosse uma broca ou uma válvula de amplificador; saído de um livro de medicina, materializa-se um braço – com as artérias a vermelho e as veias a azul – que tira um cigarro de um maço através do espelho.
Um sonho é uma sensação nocturna e
Overnite Sensation é um sonho. Lembro a nota em
Uncle Meat onde se lê que as palavras ‘foram cientificamente escolhidas a partir de uma série aleatória de sílabas, sonhos, neuroses & piadas privadas’ – todos os locais freudianos do inconsciente. A vulgaridade estridente de
Overnite Sensation faz com que o mesmo ainda não tenha sido objecto da cuidadosa psicoanálise que já foi concedida a, por exemplo,
Finnegans Wake, mas, por baixo do verniz superficial de Frank Zappa, operam todo o tipo de ligações – letras que mudam de sítio, trocadilhos secretos, combinações estranhas – características do inconsciente.
Overnite Sensation abre com ‘Camarillo Brillo’, um esboço em banda desenhada sobre sexo, com uma mãe hippie, onde se percebe quão fantasmagórica se tinha tornado a cultura alternativa em 1973.
Então ela vagueou
Pela porta
Como uma sombra saída da tumba...
Despiu
O ranhoso poncho
E deitou-se no chão nua
Fizemo-lo até ficarmos inconch’s
Tudo já se tinha tornado inútil
A demente vitalidade da melodia chafurda na sua trivialidade: é uma imagem negativa das coisas que se perderam, uma imagem mais poderosa que o esforçado rock de batalha de ‘sobreviventes’ como Neil Young. A sua vacuidade comercial compreende a alienação do mercado do rock. Adorno lembrou: ‘As canções da moda sempre desprezaram o significado, que, como antecessoras e sucessoras da psicoanálise, reduzem à monotonia de simbolismo sexual.
Em 1978 Zappa referiu-se ao
tipo de informação psicológica veículada pelos padrões geométricos dos painéis publicitários, onde o triângulo é uma réplica muito simplista da região púbica da mulher, ou como determinam que um círculo se assemelha a um seio. Isto são tudo factores com os quais eles lidam, ao nível conceptual de uma agência de publicidade, tás a ver. Têm pessoas que cobram fortunas à hora para analisar os aspectos motivacionais dos anúncios. Podes combinar estas coisas intuitivamente para veícular informação que não está inscrita no próprio texto ou na ilustração. E com a música é a mesma coisa.
No
fade-out de ‘Camarillo Brillo’ é-lhe perguntado se o poncho é mexicano ou foi comprado no catálogo de vendas pelo correio da
Sears & Roebuck (uma piada recorrente que reaparece em ‘Cosmik Debris’ de
Apostrophe (‘)).
Ela disse que era
Uma Mãe Mágica
E que me podia lançar um Tarot maléfico
E continuou sem uma vírgula
A dizer que ela era uma pessoa que eu devia conhecer
Rimar poncho com o inconsciente e mãe (
Mama) com vírgula (
coma) faz funcionar uma alquimia verbal que é similar tanto à magia hippie como goza com ela. O poncho é um círculo de tecido com um buraco no meio, o zero material: uma vírgula omitida faz lembrar um apóstrofo. A ideia de um sinal que nega o seu próprio significado possui uma ressonância especial (Zappa referiu como o Zen lhe foi útil para sacudir o catolicismo). Juntamente com os falos ejaculantes da capa também habitam vaginas abstractas: um donut voador gigante, a abertura da lata de cerveja, a toranja. O donut evoca a negação – não, não faças nada*. Este aparato de piscadelas de olho e meias-palavras sobrevoa
Overnite Sensation como um gás asfixiante. ‘Camarillo Brillo’ é uma canção de rendição ao insignificante domínio da sexualidade, uma discussão sobre as implicações filosóficas do materialismo que prossegue em
Apostrophe (‘).
Este interesse pela pontuação é uma versão literária do cuidado que é necessário quando se escreve partituras, em si mesmo uma prática que surge como arte elevada ao mesmo tempo que a emergente classe burguesa. A retenção anal daquele que inspecciona, que se concentra em minúcias e possui uma desconfiança paranóica por toda a gente, é a alma secreta do capitalismo. Na música, os resíduos improvisatórios foram finalmente abolidos no século dezanove (para além de alguma música de órgão nas igrejas). A programação por computador, que na verdade é apenas um ramo da inspecção (a maior parte dos programadores não-militares

ganham a vida a criar e/ou manter inspecções e vigilâncias, a controlar stocks ou vendas de software de processamento), logrou alcançar um lugar na composição musical com a invenção do
synclavier, uma obsessão de Zappa desde meados dos anos 80. A dialéctica entre disciplina e caos em Zappa é um prolongamento da auto-consciência da lógica capitalista, uma brincadeira com a violência niilista que se esconde atrás da repressão. A expressão de William Blake ‘o céu num grão de areia’ é muitas vezes assumida como eufemismo de microcosmos: de facto é melhor compreendida se a virmos à luz do livro
Capital de Marx, que desenvolve toda uma teoria da história tendo apenas em atenção o mais vulgar item do capitalismo, o bem de consumo. A atenção de Zappa para com os pormenores comemora e ao mesmo tempo zomba dessa visão reguladora. Este cuidado atravessou todos os discos dos Mothers of Invention, mas tornou-se princípio estruturante evidente na época DiscReet.
Zappa encontrou em Bruce Bickford, um artista que trabalha com modelos de plasticina e barro e os fotografa de seguida, alguém que possui uma combinação igual de meticulosidade extrema e invenção chocante. No vídeo
Dub Room Special há um momento notável durante o lírico solo de ‘Inca Roads’: os dedos de Zappa que passam por cima das cordas são entrecortados por imagens de alguém a mexer em papéis atrás de uma secretária e de seguida vemos todo um escritório a trabalhar. Ao encontrar estes inesperados contrapontos visuais para a música, as imagens – criadas por Bickford mas montadas por Zappa – começam a analisar a retenção anal da escolha das notas de Zappa, que se ligam às frequentes associações do sonhar alto e do trabalho nas canções de Zappa: ‘Little Green Rosetta’, ‘No Not Now’, ‘While You Were Out’.
Em ‘Dirty Love’ Zappa diz que ele ‘te vai pôr em coma / com algum amor perverso’, elidindo a vírgula de ‘Camarillo Brillo’ e tornando-a o êxtase sexual (tal como
Apostrophe (‘) acaba por ser sobre um orgasmo). Mais uma mudança de letra e temos as quatro primeiras letras de ‘Camarillo’. Há um tema muito famoso de Charlie Parker que se chama ‘Relaxin’ at Camarillo’ composto depois de ele ter saído de uma cura por vício em heroína. Comma/Coma/Camarillo – o instinto de Zappa é similar ao de James Joyce, os jogos de palavras possuem a mesma estonteante sugestão do infinito.
* Don't donothin' no original. Que na pronúnica se aproxima de doughnnut. Ou donut, em português.