Mulher madona de ar de quem domina
mulher um dia minha mesmo se ela o adivinha
e tem tão brancos dentes que jamais eu antes
vira uma vez sequer num rosto de mulher
e tem na pele a alvura da luz que inaugura
o dia ou a alegria onde uma vida principia
e ao começar termina a luz com que ilumina
e tem essa grácil cabeça onde o amor começa
e onde se constrói o que dentro de pouco se destrói
e atribui uma intenção a um aperto de mão
mais durador que a duração do gesto dessa mão
inês diz o poeta ou pedro ou o poeta pedro diz
não me dês numes dá-me apenas nomes
ou coisas sensuais e não sensíveis como os animais
talvez tão minerais como esse olhar que ao vê-lo não esquecemos mais
tu que fazes dos homens lobisomens
tu que a ti mais te consomes sempre que os consomes
com as mãos no regaço e circunscrita ao espaço
formosa feiticeira que joeira a eira
ou génio ou fada ou vida ameaçada
Penso em ti ó mulher imerecida
no rosto acidentado só por rugas momentâneas
na forma mulheril de te moveres
nessa desenvoltura com que quebras a cintura
na sede de silêncio do teu cérebro
e nesse olhar alheio que eu teus olhos colho
e um instantâneo som cerúleo me comove
e há coisas em ti tão altas como a vida
chove e sinto-me bem quando na noite envolto
Oiço dentro de casa que lá fora chove
dizes somente a solitária lágrima
que te humedece os olhos caminhamos
e há em nossos ombros numerosas folhas
Nasço subitamente há mundos no teu rosto
antes de ti ninguém na verdade houve
chove posso dizer pela primeira vez que chove
Esperar por ti não é esperar por ti
esperar por ti é ter talvez esperança
ou é esperar com minudenciosa paciência
e desenhar teu rosto em cada rosto que vejo surgir
na minha alvoroçada vizinhança dos teus passos
Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado
Quando te vejo e embora exista o vento
nenhuma folha nas múltiplas árvores se move
ver-te é logo todas as coisas começarem é
tudo ser desde sempre anterior a tudo
Ver-te é sem tu me veres eu sentir-me visto
sentir no meu andar alguma segurança mínima
caminhar pelo ar a meio metro da terra
e tudo flutuar e ser ainda mais aéreo de que o ar
ver-te é nem mesmo pensar que deixarei de ver-te
ver-te é sentir pousar mais que um olhar
uma mão muito calma sobre a minha vida
ver o teu rosto é ter toda a certeza de que existo
que sempre existirei que não há mais ninguém
ver o teu rosto é mesmo mais do que nascer
empreender viagens começadas nesse rosto
donde podem sair inúmeros navios
ver o teu rosto é como tudo começar
corrida a minudenciosa prega do silêncio
silêncio alto como um cerro inesperado como um curro
aéreo como um cirro denso como um cerro
prosaico às vezes como a mecânica de um carro
Vejo-te e povoas só de folhas que depois desfolhas
os rasos descampados que te cercam por todos os lados
Caminho ao teu encontro
a juventude é como uma oportunidade
começa a ser outono a tarde é território para a luz
tem certas listas como um fato cinzento
toco-te apenas para ver se estás aí
um país se arredonda à tua volta
sinto todas as coisas no lugar
Quando te vais embora fico de repente ao abandono
sem ao menos a protecção de uns olhos de animal
da copa arredondada de uma árvore
Vais-te embora e deixa de haver árvores no mundo
e não tenho palavras e não tenho voz
não conheço ninguém nenhum ouvido
que se possa ajustar à forma do meu grito
E desço da liteira como quem desce da vida
como que me separo de mim mesmo
sinto-me inexplicável e na rua
para sempre irremediavelmente na rua
Ruy Belo, A Margem da Alegria