Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 18:53

Qui, 04/09/08

Em Faces de John Cassavetes, de 1968, somos brutalmente atirados para o meio da classe média alta burguesa norte-americana, com os seus cinquentões bem casados que gostam de se divertir, beber e foder prostitutas de classe, como a que é representada por Gena Rowlands - escondem o vazio que sentem dentro deles. Os valores em que acreditam, ou dizem acreditar, e que por falta de coragem, força anímica ou puro e simples tédio não conseguem concretizar são a causa da angústia que, no final de todas as festas, acaba sempre por vir ao de cima.
O filme é realizado em 16mm, com câmara à mão, em preto e branco bem contrastantes, com os rostos das personagens, como nos é explicitado no título, em proeminência.
Vemos, por um lado, a interpretação das cenas como explicitamente teatral, o jogo dos actores a aproximar-se da improvisação, como no seu primeiro filme, Shadows, mas são exactamente a montagem cinematográfica, por vezes caótica e desconcertante, e os primeiros planos das caras que nos vão revelando a profundidade das personagens.
Não nos deleitamos com uma técnica irrepreensível de movimentação da câmara, somos, pelo contrário, atirados como numa vertigem, através das magníficas interpretações, para o meio daquelas festas e loucuras.
É a história de um casal de alta burguesia. Ele, Richard Forst (John Marley), um empresário bem sucedido, vai dar início ao seu próximo projecto: um filme (que se chama Faces). Ela, Maria (a belíssima Lynn Carlin), uma dona de casa, aborrecida, que espera obedientemente que o marido chegue para lhe preparar o uísque.
Depois da cena de cinema dentro do cinema, o filme prossegue com Richard e Freddie (Fred Draper) a ir para casa da prostituta Jennie (Gena Rowlands), divertidos, bêbados, quase amigos. Fala-se de amizade e confiança. Mas quando a disputa pela mulher começa, Freddie insulta-a, perguntando-lhe quanto é que ela cobra por noite. Aquilo que parecia uma noite de festa transforma-se numa visão profunda da mesquinhez, medo e insegurança de quem se esconde atrás do álcool, de futilidades e preconceitos para socializar. Contudo, para Richard e Jennie a noite foi mais qualquer coisa - um encontro que querem repetir.
Quando chega a casa, embora nada indique que eles se dão mal, ele diz à mulher que se quer divorciar. Frio como uma pedra, arrogante e prepotente liga à frente da mulher para a prostituta.
Ela decide tentar divertir-se e, como se costuma fazer sempre, encontrar um parceiro que lhe preencha o vazio que sente. Por isso, o que faz? Vai a mais uma festa. Gargalhadas e música, conversas aparentemente inofensivas, solidão e medos, a câmara de Cassavetes examina todos os rostos com a mesma minúcia. Às vezes as conversas são fúteis e a visão é desesperante, se sentimos que as personagens tocam o mais fundo de si próprias sentimos dó delas.
Maria acaba na cama com o garanhão Chet (Seymour Cassel) ao mesmo tempo que o marido passa a noite com a prostituta Jennie. Para Maria, a noite acaba com uma tentativa de suicídio. É salva por Chet que a obriga a vomitar. Para Richard a noite termina bem, mas a manhã começa mal quando quase apanha Chet, que foge pela janela, no seu próprio quarto.
Os últimos planos do filme são reveladores, o casal Richard e Maria sentado na escadaria de casa, a trocar cigarros em silêncio, incapaz de traduzir por palavras a devastação que sentem. Não se chega a perceber se estão arrependidos ou se vão voltar a ficar juntos. No fim, realmente, cada um desaparece para a sua parte da casa, mas o que fica no ar é a aparente facilidade com que se destroem pessoas e relações, e como o ser humano é caracterizado pela busca constante de felicidade e desejo, de se expandir e ser oco e fútil se for mesmo preciso.
John Cassavetes mostra-nos todos estes sentimentos, estes pensamentos, pelo modo como capta as personagens em acção, o modo cruel como os expõe, mas também o lado terno como os protege. Embora a história possa não ser completamente original, o filme faz lembrar, na temática, as atmosferas da burguesia apodrecida de Antonioni em A Noite (1961) ou O Eclipse (1962), os diálogos e a interpretação dos actores são simplesmente magníficos. É difícil destacar actores, todos (mesmo os mais secundários) conseguem atingir níveis elevadíssimos de excelência.
Se puderem ver, não percam.


pedro zamith @ 13:11

Sex, 05/06/09

 

Olá, estou a preparar uma exposição baseada neste interessante filme que tive a oportunidade de ver há alguns anos atrás... Será em Dezembro de 2009. Nessa altura formalizo o convite. Entretanto se tiver imagens e textos sobre o filme agradeço, pedro


Pedro Marques @ 22:54

Sex, 05/06/09

 

Caro Pedro, as imagens que aqui reproduzi foram tiradas do filme e escolhidas a dedo. Já não o tenho mas se falarmos com antecedência terei todo o gosto em trabalhar sobre isso contigo.
Bom trabalho.
Pedro

pedro zamith @ 22:49

Qua, 01/07/09

 

ok,combinado:) obrigado!