Um dia, em conversa, perguntei "quando é que foi a última vez que choraste no cinema?". E ele, “Quando vi a Paixão de Cristo do Mel Gibson”. Eu não tinha visto o filme, por isso a conversa ficou por ali, não percebi a razão, por muito que me tentasse contar. Até que disse: “Tens de ver o filme para perceberes o que estou a dizer”. Já o vi e continuo sem perceber. Ou por outra, acho que percebo, mas aquilo que tanto o sensibilizou, acho, foi o que me afastou do filme. Vamos por partes.
O filme conta a história das últimas doze horas de Cristo. Desde a hora em que se retira para rezar no olival, depois da última ceia, onde é tentado pelo diabo, até à crucificação e posterior ressurreição três dias depois.
Mel Gibson quis fazer um filme contemporâneo, realista, cru, apoiado em imagens violentas e sangrentas que pretendem impressionar o espectador, mas que são mal sustentadas.
O argumento, quase inexistente, retirado dos quatro evangelhos, não consegue acrescentar nenhuma contemporaneidade a uma personagem que à partida podia ser muito rica, como é, inequivocamente, Jesus Cristo. Pegar nos evangelhos, seguir-lhes os passos sem uma reflexão contemporânea a não ser as chocantes imagens “gore” é muito pouco para um filme sobre um homem destes.
Mel Gibson pediu ao óptimo director de fotografia
Caleb Deschanel que reproduzisse os claro-escuros dos quadros de
Caravaggio. [Ver
Deposizione [1602-1604]). O filme foi todo realizado em Itália, na cidade de
Matera (perto do local onde
Pasolini filmou o seu Evangelho Segundo Mateus em 1965) e nos estúdios da
Cinecittà. Caleb fez de facto um trabalho notável (a fotografia é a melhor coisa do filme, principalmente as cenas de interiores com os Fariseus no início do filme que são brilhantes), mas Mel Gibson não fez o resto. Ou seja, Caravaggio quando pintava as cenas bíblicas emprestava-lhes sempre um olhar contemporâneo, as personagens estavam vestidas à século XVI/XVII, o pensamento por trás do quadro era dramático e profundo, sentíamos que o pensamento de Cristo ainda chegava ao século XVI/XVII. No filme de Gibson, o pensamento não chega até nós. Chega-nos o sofrimento dele. Exagerado, de maneira monstruosa, sublimado. Chega-nos a paixão (no sentido de sofrimento e grande amor) de Cristo. Lembro que no belíssimo filme de Pasolini, Cristo também é divino, mas o testemunho que nos chega é de Mateus e não de São Mateus, como Pasolini fazia questão de sublinhar. Aqui, o testemunho é de Mel Gibson, católico, que quer fazer um filme contemporâneo mas não se consegue livrar do seu olhar retrógrado e mítico.
Até nós chega-nos um filme em que os Romanos são irrealisticamente malévolos. Lembro-me das irritantes cenas em que torturam Cristo rindo-se, tentando deste modo mostrar como os humanos são cruéis e bestiais e como Cristo era divino e cheio de paixão. Foram estas cenas que me afastaram.
É aqui que, para mim, o filme falha redondamente. Quando assume desde o início que Cristo era divino. Por que havia de ser? Por que é que Cristo não podia ser um HOMEM que se sacrificava por uma causa maior? Por que tem ele de ser divino? Para podermos continuar a assumir a nossa condição de seres humanos imperfeitos e continuarmos a fazer tudo aquilo que não devíamos fazer apenas porque: epá, não sou perfeito, errar é humano, posso deitar esta bomba aqui e depois ir-me confessar, sou humano, não sou Deus.
Um filme contemporâneo seria um filme que pensasse real e profundamente naquilo que Cristo nos queria dizer, iluminando-nos ainda com o seu pensamento que, de alguma maneira, atravessou os milénios: amai-vos uns aos outros, dai a outra face, etc. Mas, claro, nós dizemos: ele podia dizer isso porque era divino, no fundo podia morrer à vontade porque era filho de Deus. Então, onde é que está o sofrimento? Onde é que está a Paixão?
Ao vermos um Cristo divino não percebemos porque razão se faz um filme em que ele sofre de modo tão humano, sangra um sangue tão humanamente vermelho, olha com um olhar tão profundamente humano. Por que razão Gibson quis fazer um filme tão realista ao mesmo tempo que nos mostra uma paixão de Cristo divina?
Não digo que tenha sido uma perda de tempo ver o filme, a fotografia é belíssima, é muito bom não ouvir Pilatos a falar inglês da América, já que o filme é falado em aramaico e latim, a interpretação de James Caviezel não acrescenta muito à imagem que todos nós temos de um Cristo convicto e cheio de amor, mas a insistência americana de tentar constantemente criar mártires para nós adorarmos (tão parecidos que são com os fanáticos religiosos muçulmanos!) deixa-me realmente sem paciência para poder pensar mais um bocadinho no filme.
No entanto, o tema é sempre fascinante e vale uma boa conversa.
Que seja o ínicio de uma longa e frutífera viagem pela blogosfera ;)
P.s. Não sei se será intencional, mas a possibilidade de comentar os posts está interdita na maioria deles...
Abraço!