Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 01:36

Dom, 04/05/08

É dia dentro em pouco minha única mulher
já vai fugindo a noite que num poço se concentra
e a excessiva luz não deixa ver
e por demais te amo para amar-te
vivi tanto os instantes que são séculos agora
vai fazer anos era outono
eu tinha-te era dono assim mantinha-te
No peito que era teu uma pedra me pesa
pedra que se concentra e tudo arrasa
e tudo alisa como tudo o que se usa
Tenho gestos objectos e dias a mais
eu que só necessito ouvir as fontes
só assim me povoa o nada circundante
Há a manhã no mundo alguém é inocente
o silêncio é maior que muita gente
(...)
Olhar era para nós olhar apenas
havia em nossas mãos restos de dia
coisas que o sol ao pôr-se não queria
Sou desta terra fico um pouco neste céu
e destas oliveiras onde fala só o vento
e diz não sei o quê fala possivelmente por falar
Mas eu esqueci coisas até como esse vento
eu que na praia deixo qualquer coisa minha
um pensamento uma pegada restos de verão
Ela tinha na face um pouco da manhã
o fogo era indiscutivelmente rubro
devorador irresistível e sorria
(...)
Vejo no céu qualquer coisa de meu
o dia acaba alguém se lembra de morrer
parece um pouco que não há nada a fazer
não me perguntem em que empreguei o tempo
creio que a bem dizer não fiz mais do que olhar
e há tão pouca gente que só saiba olhar
A morte não é coisa para os homens
e um cadáver cresce ocupa toda a casa
é uma coisa incómoda até que o despejam como lixo
Eu venho do verão com o aspecto
do camponês que volta da vindima
por uma estrada aberta no crepúsculo
entre filas de choupos cada vez mais indecisos
e que cada vez menos se perfilam quando passo
e quase não perfuram já o véu do céu
Velas brandões archotes tanto faz
eu quero é luz possível solução
para a morte que há na minha vida
As flores são mais flores ao crepúsculo
são um pouco de luz quando a luz falta
e é quando a noite vem que elas florescem
a neblina da tarde faz-lhes bem
Há quem caia no mar há quem tropece em deus mas eu
tenho terra nas mãos na terra tenho
mais que terra dos campos terra antiga terra
onde há homens e tempo terra terra
seja onde for tenho afinal um pouco de portugal
Dizem-me que morreste que fazer?
Eu era pouco mais que certos gestos
e já quase nenhuns têm sentido
Sentia-me à vontade nesta vida
e agora compreendes sinto-me perdido
nunca sei já onde as coisas estão
Fecho às vezes as mãos e fecho-as em vão
não preciso de muito mas de um mínimo preciso
No teu pequeno rosto eu tinha quase tudo
infância mar países aves certos livros
rescendias talvez ao feno se ceifado
havia laranjas em teus cabelos
ou giestas em flor que não florescem mais
no cume do imóvel mês de maio
contigo adormeceu a vida toda
a sombra cerca-me não tem menos do que duas mãos
A abóbada de pedra sobre a tua morte
é um céu todo à tua medida
irrequieta vida mineralizada
O dia suspendeu-se é meia-noite é meio-dia
está tão escuro agora como luz antes havia
O que eu quero é o espaço onde caiba uma rosa
um mínimo de terra alguma vida
Tira o ceptro de sobre o almadraque
teu manto de rainha cobre agora portugal
quando à terra desceu a vida toda
na noite que couber entre coimbra e alcobaça
Na tua carne podre enterro o bico como um corvo
cubro o teu corpo morto não vás tu sentir o frio

Ruy Belo, A Margem da Alegria, Editorial Presença.


Pedro Marques @ 18:59

Seg, 05/05/08

 

e io non ti dimenticherò mai in vita mia, sei stata, e sei, la cosa più importante per me