Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 21:11

Ter, 09/09/08

A EXPLÍCITA CONTINUIDADE DO CANICHE

A letra de ‘I’m The Slime’ mostra um virtuosismo com rimas à maneira de Bob Dylan dos primeiros discos, e um som cristalino e beliscado na guitarra que cintila como a imagem de um televisor. Particularmente reveladores são os dois versos
E tu irás fazer aquilo que te dizem
Para te venderem a sua imagem de marca
visão paranóica da publicidade que tem a vantagem de resumir rigorosamente o que se passa na televisão quando se vendem produtos em horário nobre. Houve a ideia de incluir extractos do discurso de Watergate de Richard Nixon, mas foi abandonada. ‘Dirty Love’ revela um caniche, explicitamente, pela primeira vez. É uma canção sobre a luxúria:
Dá-me
O teu amor perverso
Como daquelas revistazinhas pegajosas
Que estão na gaveta de baixo da secretária do papá
Em ‘Brown Shoes Don’t Make It’ havia uma referência à pornografia:
Um mundo de desejos secretos
Que perverte o homem que faz as leis
Os desejos estão todos escondidos
Na gaveta da secretária ao lado de uma cadeira de napa
Em 1967 Zappa usou argumentação reichiana ao fazer uma ligação entra a repressão sexual e o comportamento moralista de direita. Em 1968 Leroi Jones abordou temas similares:
Reich escreveu sobre a repressão sexual no homem branco e de como este bloqueio de exteriorização natural e de outras energias violentas causa cancro e demência nos americanos brancos. E esta energia sexual é uma perversidade que ameaça sempre a ‘ordem’, i.e. o ‘racionalismo’, o inumano, a ordem social assexuada que o homem branco procura manter com todas as suas forças.
Quando Frank Zappa tocou no Hammersmith Odeon em 1979 reparou num bebé que estava nos braços de uma das pessoas que dançavam na coxia. Depois de dizer que esperava que o bebé não caísse e batesse com a cabeça, acrescentou que ouvir a letra da canção talvez ajudasse o bebé ‘a crescer como deve ser’: a banda atacou ‘Dirty Love’. Em Overnite Sensation, a busca de ‘amor perverso’ é apresentada com um olhar lascivo que revela ofensa em vez de libertação.
Vou ignorar o teu perfume barato
E a tua licenciaturazinha
Vou-te só pôr em coma
Com algum amor perverso
A menção à licenciatura demonstra a mesma hostilidade em relação às mulheres de educação elevada como em ‘The Illinois Enema Bandit’. O efeito de fundo revela-se uma versão jazz-rock de alta-tecnologia de ‘I Wanna Be Your Dog’ de Iggy Pop:
Dá-me
O teu amor perverso
Da mesma maneira que a tua mamã
Obriga o caniche a chupar...
O CANICHE MORDE!
(Vamos, Frenchie)
O CANICHE CHUPA-O!
(Mete-o na boca)
Os cães parecem ser recorrentes na subversão pop desde Iggy Pop a George Clinton (‘Por que é que eu tenho de fazer isso? Por que é que tenho de perseguir o gato / Apenas pelo cão que há em mim’) até Malcolm McLaren com os Bow Wow Wow. Mas a associação de cães e sexo tem uma história mais longa, uma corrente subterrânea que demonstra a precisão com que Zappa escolhe os seus ícones culturais.
No longínquo século dezassete, a servilidade do cão doméstico possuía conotações sexuais. Em Venice Preserv’d, ou, A Plot Discover’d, Thomas Otway coloca um velho senador chamado Antonio a convencer a mulher a tratá-lo como um cão:
estou debaixo da mesa agora, dá-me mais um pontapé – dá-me um pontapé
com mais força – com mais força ainda, bão ão, ão, ão,
bão – meu deus, vou morder-te nos queixos – bão ão
ão, ão, bão – meu deus que pontapés tão bons que ela dá.
Ela obedece e chicoteia-o – com a frase ‘aqui tens a tua disciplina’. Na Dialéctica da Iluminação Theodor Adorno e Max Horkheimer encontram em Sade uma chave para entender por que é que a racionalidade ocidental pune a sexualidade: a ânsia instintiva é um local residual da natureza, algo que a racionalidade vê como inimigo. Como o animal doméstico mais vulgar, o cão torna-se facilmente símbolo de tal natureza reprimida.