Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 22:57

Ter, 03/06/08

Encontrei esta entrevista do Edward Bond na BBC 3. Vale mesmo a pena. Nunca o tinha ouvido falar, é bastante impressionante o tom de voz e a velocidade, impossível ter imaginado assim. Peter Hall, um dos maiores encenadores ingleses de teatro contemporâneos dizia que gostava de ouvir o autor das peças, Harold Pinter, a falar. Dessa maneira ele percebia como as personagens se exprimiam... acho que tinha razão.
Neste caso é uma entrevista magnífica conduzida por John Tusa, onde Bond nos conta por que escreve histórias e como o faz. Fica aqui um excerto.
Ora, obviamente que não acredito em nenhum Deus, nem em nenhuma coisa chamada Deus. Mas supondo, mesmo assim, que há um artesão disto tudo, que não quer saber o que está certo ou errado, nem o que é a moralidade, mas é apenas um artesão que junta tudo, e este artesão, ele, ela ou eles, está lá em cima a olhar para nós, olha para o nosso universo e diz... olha para o nosso mundo e diz, bom, os cães estão a dar-se bem, mas estes aqui são seres humanos, estes deixaram de criar humanidade, por isso estão mortos.
Tu estás morto, eu estou morto, vivemos numa sociedade de mortos, não numa sociedade pós-moderna, mas numa sociedade póstuma. Deixámos de criar a nossa humanidade. Podes ir para o hospital a morrer, eles põem-te numa máquina que te mantém vivo. É um sistema que permite manter-te vivo. Nós mantemo-nos humanos da mesma maneira, embora estejamos mortos, ou seja, deixámos de criar a nossa humanidade, através de um sistema que nos mantém vivos, e todas as coisas, a parafernália do consumismo moderno, são as coroas de flores que levamos para o nosso próprio funeral. (...)
Eu disse que a nossa espécie está morta e nós como membros dessa espécie estamos mortos. Olha, supõe que olhas para um mar com muitos peixes a nadar e alguém te diz que esse mar vai desaparecer, então podes dizer, bom, os peixes estão todos mortos. E é neste sentido que eu digo isso.
E mais à frente este excerto que retoma aquilo que eu disse aqui sobre o grupo de Tondela, os Na Xina Lua.
Escrevi há pouco tempo uma peça para jovens, numa escola em Cambridge chamada Manor Community, que devia ser vista como aquilo que eu percebi ser uma escola muito pouco privilegiada. Escrevi uma peça para eles que foi mostrada a alguns adultos que disseram que os miúdos não iam entender, era difícil. E era uma peça exigente, quando escrevo para jovens escrevo sempre sobre as perguntas mais profundas, porque acho que eles estão interessados nas perguntas mais profundas. Estas crianças deram uma récita, uma interpretação daquela peça que era melhor que aquilo que o National Theatre podia fazer, porque eles precisavam da peça. Eles precisavam daquela peça porque lhes mostrava alguma coisa sobre os seus futuros e sobre as suas vidas. Não era entretenimento puro era mais, muito mais divertido que o entertenimento puro. Deram uma óptima récita; todos aqueles jovens têm dentro deles o querer fazer do nosso mundo, para o dizer simplesmente numa frase, um lugar mais humano.