Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 21:50

Qua, 13/08/08

Os povos da antiga Grécia sabiam realmente o que faziam.
Não só nos mostraram como nos devíamos organizar no presente em que o fizeram, como no futuro que programaram. A democracia do povo cruzou séculos para ser reinventada no Renascimento e chegar aos nossos dias, desvirtuada, espezinhada sim, mas, não obstante, tenaz.
Os gregos clássicos até inventaram os jogos olímpicos como garante de paz e tréguas entre as nações (naquela altura, cidades-estado). Para além de tributo aos deuses, os jogos olímpicos (que faziam parte de outros jogos pan-helénicos) eram também oportunidade para o desenvolvimento do elevado sentido estético dos gregos.
Talvez seja por isso que a verdadeira intenção das competições desportivas tenha sido tão desvirtuada com o passar dos séculos, à medida que o corpo era visto como pecado, algo que devia ser escondido e preservado puro, e o sentido estético reduzido a um qualquer comportamento religioso. Para o imperador romano Teodósio I os jogos eram tão perigosos que foram pura e simplesmente banidos sob seu mandato - embora nessa altura os próprios jogos já tivessem degenerado em magníficas orgias. Os gregos sabiam-na mesmo toda...
Na era moderna, assistimos a uma grande esquizofrenia. Em Agosto do ano 2008, em Pequim, desportistas de todo o mundo lutam consigo próprios, com os seus limites, com adversários que respeitam, revivendo a beleza e audácia, a excelência e humildade, alimentando-nos a esperança de competições pacíficas, enquanto em Gori e Tblissi, os mesmos homens lutam com armas e mísseis, exterminam populações inteiras, fomentam o horror e o pânico de dia ou de noite, com bombas, discursos inflamados e balas.
Hoje em dia podemos ver os jogos olímpicos e a guerra como antagónicos mas também como duas faces da mesma moeda que se chama "Competição". Que em si mesma não é "má". Significa apenas "antagonismo". E talvez até desenvolvimento. Só que na guerra esse desenvolvimento leva à destruição (mais uma esquizofrenia), enquanto que nos jogos olímpicos leva à glorificação do ser humano naquilo que ele tem de mais extraordinário - através do corpo.
É por isso que me deprime e exalta assistir aos jogos olímpicos. De um lado vejo a glorificação da paz e do outro a exaltação nacionalista. Em 1920 incluiu-se no juramento dos jogos a expressão, "honrar a equipa" em vez de "honrar o país". Talvez fosse hora de voltar a incluí-la nos discursos dos responsáveis, competidores e media, podia ser que aí pudéssemos começar a vislumbrar algo do verdadeiro espírito olímpico. Podia ser que os jogos olímpicos da era moderna correspondessem a um verdadeiro pensamento filosófico e estético que fosse capaz de banir de vez o recurso à violência sanguinária para resolver problemas.