Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 10:49

Qui, 15/05/08

Quando em Janeiro passado escrevi que estava de acordo com o decreto-lei sobre o fumo em locais públicos aprovado por este governo, não sabia o que me esperava. Realmente, não sabia sequer que o Primeiro Ministro fumava, com tantos joggings e maratonas pensei que o senhor fosse não-fumador, ou melhor, ex-fumador, porque me lembro que uma vez disse que fumou uns charros - quando era jovem.
Mas pelos vistos, não. Ele fuma. Não que isso me importe muito, mas agora fumou um cigarro (ou mesmo vários!) com o seu colega Manuel Pinho no avião que o levou à Venezuela. Ah, desgraça! Ah, bandido! Violou uma lei de estado que ele próprio criou. Embora o caso, em si, não seja motivo de surpresa, devíamos estar à espera que este tipo de coisas pudessem suceder. Sabemos bem o que são os governantes.
O que é grave, para mim, é saber que na comitiva que o P.M. levou à Venezuela houve pessoas que se sentiram incomodadas com o fumo do cigarro dele e o denunciaram - bufos! O que é hilariante é ver os telejornais abrirem com a notícia de que José Sócrates fumou um cigarro no avião - que importante! O que é de lamentar é o aproveitamento que todos os partidos fizeram para o atacar - crocodilos! O que é esquisito é ninguém se ter lembrado de perguntar o que é que ele fumou (sabendo todos o passado infame em relação a outro tipo de substâncias)! Só que a justificação que Sócrates deu é mesmo de ir às lágrimas... que tristeza!
José Sócrates afirmou que não sabia que estava a violar uma lei e, se a violou, pede desculpas. Confesso que por esta é que eu não esperava. Não esperava que o P.M. pedisse desculpas e, como um menino de escola mal comportado dissesse: "não volta a acontecer, aliás, vou deixar de fumar". O que é que isto quer dizer? Não sabia que a lei se aplicava no avião porque não estava em território português? Será que ele não pode assumir o erro, ou mesmo a infracção, sujeitando-se à lei que ele próprio criou? Não tem dinheiro para pagar a multa? Quer um estatuto de excepção porquê? O P.M. está à margem da lei do estado? E o Ministro Manuel Pinho não pede desculpas? Vai pagar a coima? Mais, que necessidade fez com que Sócrates telefonasse da Venezuela para a RTP1 a justificar a sua atitude? Foi um gesto absolutamente lamentável, só comparável ao alarido que as televisões e jornais e os partidos da oposição fizeram com o caso. É óbvio que se não fossem eles não saberíamos do facto, mas, who gives a fuck anyway?
Fica a viagem, o aperto de mão a Hugo Chavez, o acordo económico e as vantagens de estarmos a criar laços com uma economia que bate o pé aos E.U.A., sejam elas quais forem.
Já agora, peço desculpa por me ter enganado em Janeiro em relação às motivações do P.M. e ter atravessado a estrada fora da passadeira ontem e ter pensado que não havia problema...


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Xavier @ 22:02

Qui, 15/05/08

 

Confesso que também fiquei surpreendido pelo descaramento do Sr. 1º Ministro. Então sua excelência não conhece a Lei do Tabaco? Lei que o seu (dele) Governo aprovou e tanta polémica deu que só alguns eventuais cegos e/ou surdos não souberam dela?
Se fosse um 1º Ministro estrangeiro a afirmar não conhecer as leis básicas do seu país, o que pensaríamos de semelhante criatura?
Mas o nosso pediu desculpa, pronto, é quando basta neste país. Assunto arrumado!

RF @ 14:29

Seg, 19/05/08

 

O problema é que poucos têm a coragem para ir "atravessado a estrada fora da passadeira", de vez em quando. A maioria das pessoas que "podem" opinar sobre o que está mal politicamente, blogar, ou intervir - porque têm meios para manter uma internet cara ou usar outros processos de comunicação de massas - não atravessam a estrada fora da passadeira. Pelo contrário, acomodaram-se e calam-se.
Pior ainda, quando intervêm muitos são de uma contenção pusilamine, mal afloram o assunto e logo se apressam a justificá-lo, a desculpá-lo, a desdramatizá-lo.
Atravessam de cabeça baixa pela passadeira e nem gritam muito quando, mesmo assim, são atropeladas.
Só posso dizer: Bem feito! É o que mereçe uma sociedade encarneirada que avança sem querer saber para onde, como foi bem demonstrado numa BD do Quino publicada neste mesmo blog.

Rui Fernandes, educador.