Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 08:03

Seg, 25/06/07

A sociedade portuguesa tem uma má imagem dos artistas em geral. Isto é facto assente. Ninguém tem dúvida. Para uma pessoa como eu, que trabalha com e a partir de formas artísticas, é um problema. Mas como fugir a este preconceito? Qual é a razão para esta animosidade da sociedade, em geral, em relação aos artistas?
Segundo a minha muito humilde opinião (que para além de ser humilde, sente na pele o absurdo) deve-se ao facto de se ter mitificado a arte e o trabalho dos artistas. As pessoas em geral estão muito longe de perceberem que os artistas são pessoas normais como todas as outras. Óbvio. É claro que isto é devido a um quase total desconhecimento de obras de arte nacionais e internacionais por parte de grande parte da população portuguesa, asfixiada que foi por sessenta anos (pelo menos) de ditadura. A arte e os artistas foram sempre marginalizados e vistos como supérfluos, uma elite, uns comunistas… quando, na realidade, o trabalho que fazem é para a sociedade e constantemente escorado nela.
Em Portugal estamos ainda muito longe de considerar, como acontece em muitos outros países da Europa, a arte e as formas artísticas como primordiais para o desenvolvimento integrado e social do indivíduo e das estruturas da sociedade.
Os textos do Edward Bond que traduzi e já inclui aqui no Fora de Cena dizem que o ser humano é uma entidade vazia que espera ser preenchida com cultura. E cultura, neste caso, queria dizer: sinergias, comportamentos, reflexões, cumplicidades, consciência de nós próprios, coisas que nos permitem criar conhecimento e desenvolvimento sustentado.
A origem da arte teve lugar há muitos milhares de anos quando o homem decidiu olhar para si próprio visto de fora, isto é, representando-se. As primeiras pinturas nas cavernas atestam o facto. O homem tinha necessidade de não esquecer aquele acontecimento extraordinário, aquela caçada importante para a composição, sobrevivência e alargamento do grupo. A necessidade de se ver de fora constituía um factor de união entre as pessoas da comunidade. Uma maneira de agradecerem e honrarem a própria vida. Um combate com a morte.
Nessa altura o artista que desenhava era visto como um feiticeiro, um homem iluminado que lia os sinais cósmicos inexplicáveis da natureza: as trovoadas, os eclipses, os incêndios, etc. A importância desses “sacerdotes” levou ao nascimento e posterior crescimento das artes: a criação de templos em louvor dos deuses, sacrifícios antecedidos ou precedidos de festas ou actos litúrgicos que congregavam as comunidades e as uniam em torno de algo que representava ou interpretava os signos da natureza.
À medida que o homem foi tendo mais tempo livre, sedentarizando-se, porque não o gastava todo na caça, começou a criar outras formas de interacção e a desenvolver o cérebro em actividades novas. Foi o nascimento do embrião de sociedade que conhecemos. Olhando para a arte dos dias de hoje vemos que ela ainda tem o mesmo significado para os homens – a representação da natureza nas suas mais variadas formas – mas, ao mesmo tempo, assistimos a um afastamento dos artistas e das artes em geral (aqui distingo arte de entretenimento) em relação ao seu público. A que se deve?
A arte ainda não conseguiu criar mecanismos para chegar àquilo que se convencionou chamar grande público. Isto é, em parte, culpa dos artistas que não conseguem integrar na sua arte uma visão mercantilista e puramente materialista, rebolando ainda numa concepção romântica e mítica da arte e considerando que o modo como se chega ao público não é interessante para o artista. Quanto a mim, isto é um erro. Se podemos admitir que a obra de arte não se deve modificar depois de concluída e ao sabor dos ventos do possível mercado também é verdade que cada vez mais deve ter em conta o sentimento alienante e contraditório intrínseco à fruição de qualquer obra de arte sob um sistema capitalista. A arte deve questionar esse sentimento, interpelando-o de todas as formas mas nunca o ignorando. A outra questão tem a ver com o estilo de vida que levamos que nos obriga a ver as coisas de um modo simplesmente consumista desligado de quaisquer valores profundos.
Em Portugal o facto é mais grave. O nível educacional da população e o estilo de vida consumista, esquizofrénico e neurótico, em geral, não permite às pessoas ter necessidade de se verem representadas.
Para que é que eu me vou ver representado num sítio qualquer se a vida que levo me rouba todo o tempo que tenho? Não quero ser confrontado com coisas que me podem fazer pensar na esterilidade da minha vida, posso vir a perceber que ela é uma mentira, posso vir a perceber que eu próprio sou uma mentira. Ou seja, aquilo que me é oferecido (representado, interpretado) não está de acordo com aquilo que eu penso. O acto de ver uma exposição, assistir a um concerto de música, pressupõe uma partilha e uma entrega das duas partes. É uma espécie de viagem. Enriquecedora e ao mesmo tempo precedida de medo pelo desconhecido.
É este medo que deve ser combatido. Quando as pessoas decidem ficar em casa a olhar para o computador ou para a televisão, quando consideram e põem em pé de igualdade entretenimento e arte, quando põem na mesma balança a fruição de um DVD e a ida a um cinema ou uma exposição, estão a ignorar o acto social, ritual que possui uma “aura” própria e dá significado e valor ao acontecimento. Quando decidem não ir a uma peça de teatro porque pode ser uma seca estão a contribuir para o atrofiamento da sociedade e de si próprios. Para a sua decomposição.