Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 12:08

Dom, 18/11/07

No final do filme uma legenda informa-nos: "Este filme foi uma improvisação." A substância distintiva do jazz - o improviso, o momento - que confere vivacidade, surpresa e textura à música, é uma das características deste filme. Para além das evidentes limitações técnicas, somos confrontados com uma alegria e realidade urgentes, características do final dos anos 50 nos E.U.A e da sua beat generation que parecia prometer uma arte ligada ao quotidiano citadino.
A história de Shadows (1959) de John Cassavetes, o primeiro filme do realizador, passa-se em Nova Iorque e envolve várias comunidades de jovens músicos de jazz que partilham uma casa como irmãos. Acompanhados por lamentos de saxofones e percussões tribais, assistimos, como se num qualquer clube nocturno, às suas lutas quotidianas por amor, dinheiro, dignidade, reconhecimento.
A câmara de Cassavetes capta os actores em plena criação do momento, do mesmo modo como ouvimos um solista de jazz - livres e expectantes. Carregando um fascínio pleno de humanidade.
O conflito central do filme centra-se no amor de David por Leila. O encontro dos dois numa festa, resolvido finalmente numa relação carnal ocasional, não encontra saída fácil e quando ela lhe apresenta os seus dois irmãos negros (sendo ela branca) causa uma reacção instantânea de rejeição por parte de David. Embora possa parecer insignificante, este pormenor carrega consigo todos os temas centrais do filme.
Com esta comunidade de raças mistas, o realizador mostra-nos uma visão melancólica da sociedade do momento e do papel que a fraternidade e a violência desempenhavam nela. Mostra-nos as dificuldades de relacionamento - na cena de pancadaria final -, os horizontes fechados e a necessidade de quebrar padrões de comportamento. Numa das cenas iniciais de café, alguém diz, "Para evoluíres tens de mudar de comportamento".
O filme não resolve este conflito, a ferida de Leila continuará aberta enquanto ela se lembrar dela. David terá aprendido o preço do racismo com a negação de um amor. O seu irmão branco vagueará pelas ruas e os dois negros (agente e cantor) permanecerão juntos apesar de o cantor chegar sempre atrasado aos encontros.
Os nomes das personagens são iguais aos nomes dos actores. O título do filme explica a relação dialéctica entre as personagens e os actores. No final da corda está o espectador a viver o momento na mesma altura que os actores - tal como num solo de jazz.
As sombras das caras dos actores devidas à iluminação expressionista projectam-se na história.
As mesmas sombras serão gravadas na nossa memória depois de termos visto o filme.