Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 15:17

Seg, 11/06/07

Em determinada cidade houve durante anos insuficiência de água. Isto causava doenças e todo o tipo de sofrimentos aos cidadãos. Havia grandes chuvadas todas as Primaveras e as pessoas viam silenciosamente o precioso rio de vida escorrer para as sarjetas que logo ficavam tão secas como ossos. Com o tempo construíram-se máquinas. Apareceram novas fábricas de fiação e fundição de ferro na cidade. Estes locais precisavam de mais água e os trabalhadores também. Os governantes eram homens práticos e filantrópicos. Utilizaram as máquinas novas para construir uma barragem nas montanhas a montante da cidade. A barragem recolhia toda a água que a cidade precisava. Infelizmente chegaram as chuvas da Primavera e o lago da barragem ficou demasiado cheio. Havia o perigo de que a pressão da água abrisse uma brecha e inundasse a cidade numa súbita destruição. A parede da barragem tremia como a mão de um homem doente. Isto aterrorizava os trabalhadores e alguns fugiram das fábricas e foram viver para os montes. Durante o pânico geral houve motins e saques. Os padres fizeram serviços especiais. Os donos das fábricas chamaram o governo para obrigar o cumprimento da lei e da ordem.
Quando os governantes da cidade tiveram a inteligente ideia de construir a barragem deviam ter sido suficientemente inteligentes para a fazer segura. Deviam ter sido construídos aquedutos para levar a água em segurança a toda a cidade ou até aos parques e praças, embelezando-os com fontes e lagos. Mas perceberam que havia pânico e medo de colapso. Nestas alturas os governantes não culpam a maquinaria da sociedade mas sim a gente. Eles viam o desastre como um teste ao espírito nacionalista. Portanto, em vez de reconstruir a barragem, os governantes chamaram os cidadãos para servirem a cidade fazendo sacrifícios: deviam beber mais água.
Foram organizados festivais de água. Esquadrões de beberrões patrulhavam a cidade. Os bons cidadãos eram sempre vistos a beber um copo de água. Eram concedidas medalhas àqueles que consumiam grandes quantidades. É surpreendente o que os indivíduos bem-intencionados e com espírito-de-grupo conseguem fazer nessas ocasiões. Houve um homem que bebeu cento e noventa litros de água por semana, durante três semanas, até se afogar internamente. Pediu para ser enterrado num banho. Lavava-se muito as pessoas e as coisas. As pessoas que não tivessem cortinas a pingar podiam contar com janelas partidas por grupos de jovens pioneiros chamados Os Bebés da Água. A cidade era um pântano e as pessoas andavam com roupas que tinham sido lavadas até ficarem em farrapos e dormiam em camas húmidas; havia muitas gripes. Os jornais publicavam listas de baixas diariamente. Estas listas mostravam enormes crescimentos nos casos de pneumonia. As pessoas sofriam também de água no joelho e no cérebro. Os degraus e as ruas eram lavados muitas vezes, por isso havia muitas pessoas que escorregavam e os serviços de primeiros socorros tinham de lidar muitas vezes com tornozelos torcidos e pernas e costas partidas. Claro que os feridos — que já tinham feito o sacrifício — já não podiam beber muito ou lavar-se muitas vezes. O fardo tornava-se mais pesado para os outros.
Nesta altura, muitos patriotas começaram a pegar fogo às suas próprias casas para os bombeiros o poderem apagar. Os leais também incendiavam edifícios públicos: galerias, museus e escolas. A nada era permitido impedir os esforços da cidade. A segurança social estava em perigo. Podemos dizer com segurança que a moral das pessoas nunca foi tão alta. E funcionava. O nível de água da barragem desceu. O extraordinário argumento foi usado contra os elementos de ruptura que perguntavam se não havia uma maneira mais fácil de controlar a barragem. A parede da barragem já não tremia. Os dissidentes eram conduzidos às janelas das celas para olharem e declararem que estava firme como uma rocha. Os meios de comunicação lembravam todos os dias às pessoas os tempos em que a barragem era chamada A Velha Paralítica e tinham vivido com medo d’A Explosão. As coisas iam bem. Para mais, nessa altura, o grande surto de hidropisia aparecia como grande revés ao regime. Esse revés foi seguido de outro: as pessoas começaram a rebentar. Os governantes até se perguntaram se as pessoas aguentariam. Ao olhar pela janela o governador via transeuntes a cair na rua e rebolar até às paredes das casas onde ficavam durante alguns minutos sem beber. Talvez houvesse fraquezas inerentes ao carácter nacional. Como podia uma nação destas sobreviver?
O próprio governante sentiu-se atingido com a luta contra a água. Decidiu dirigir-se ao povo — talvez, disse para si próprio, pela última vez. A Polícia da Água cercou os sobreviventes e juntou-os na praça principal. O governante ficou surpreendido com a exiguidade da multidão. Se as pessoas não estivessem tão inchadas veria que a turba ainda era mais pequena do que pensava. Enquanto o governante falava explodiram uma ou duas pessoas. Havia uma nova doença: uma febre que aquecia o sangue e fervia a água. Os que sofriam da doença exalavam grandes quantidades de vapor e emitiam assobios muito agudos que rompiam pelos ouvidos, boca, nariz e ânus, até os corpos rebentarem. O governante falou com muita dignidade, levantando a voz por cima dos gritos, arrotos, plops, mijos e explosões. ‘Caros concidadãos! Hoje de manhã recebi os números. O nível de água da barragem é tão baixo que — se sobreviver alguém — podemos assegurar três anos sem o perigo de ruptura na barragem. Aquilo que o futuro nos reserva depois, ninguém pode dizer, mas estamos seguros durante três anos — não interessa a quantidade de chuva que chova! Caros concidadãos, saúdo a vossa grande vitória! Que Deus nos abençoe!’ Ele próprio começou a sobreaquecer com febre patriótica e entrou em ebulição. Gritou e expeliu uma nuvem de vapor. A multidão contou até cinco antes de ele morrer. Enquanto as nuvens de chuva da Primavera se juntavam nos montes, a polícia da água infiltrou-se na multidão usando as novas engenhocas tipo bomba-mangueira que tinham sido recentemente introduzidas e que lhes permitiam enfiar água pela goela abaixo daqueles que, embora o desejassem, não conseguiam engolir mais.

Edward Bond, Fables.