Em Agosto do ano passado tive a oportunidade de visitar uma parte da Itália. Uma das viagens mais interessantes que fiz foi a Cassino, local de uma batalha sangrenta aquando da invasão aliada da Itália em finais de 1943, princípios de 1944.
Depois de entrarem perto de Nápoles, as forças armadas aliadas avançaram na direcção de Roma. Porém, no meio de um vasto vale, a cerca de 130 km de Roma, ergue-se o Monte Cassino, ornado de uma abadia que remonta ao século VI depois de Cristo. No sopé do Monte Cassino, que tem cerca de 530m de altura e se ergue inesperadamente no meio do vale, fica a aldeia de Cassino. A posição deste monte era estratégica. Quem sobe ao monte pode ver que o mesmo domina toda a paisagem. Os alemães estavam enfiados, literalmente, no meio do monte, em casamatas fortificadas. Imunes aos bombardeamentos. Há relatos que contam que enquanto os aliados bombardeavam desesperadamente as imediações, os alemães jogavam às cartas dentro dos seus abrigos.
Para terem uma ideia da violência da batalha, morreram cerca de 20.000 alemães e cerca de 50.000 tropas aliadas, entre polacos, canadianos, americanos, ingleses, franceses e, claro, italianos. Uma das controvérsias desta batalha teve a ver com a Abadia no cimo do monte. Durante alguns meses, os aliados pouparam a Abadia dos bombardeamentos. Mas, ao suspeitarem que a mesma servisse de refúgio aos alemães, a 15 de Fevereiro de 1944 a aviação aliada dizimou-a. As suspeitas não se confirmaram, como depois se constatou, e a destruição terá sido inútil.

Seja como for, quando estive em Cassino decidi ir ao cemitério alemão que fica em Caira, um pequeno lugarejo a cerca de 4km de Cassino. Podem perguntar-me porquê. Mas nem eu sei. Talvez porque quisesse ter o meu contacto directo com alguma coisa que tivesse a ver com o tempo dos nazis. Queria ver com os meus olhos as consequências do nacional-fascismo. Não sei. O que sei é que eu e a Leti fomos a pé, contornámos os montes circundantes e dirigimo-nos para Caira. Ao caminharmos, víamos ao longe uma tempestade que rugia, os montes eram definidos por nuvens roxas escuras que prenunciavam muita chuva. Nós não nos amedrontámos, prosseguimos, alagados em suor. Ao chegar ao cemitério a tempestade passara e o sol não tardou a abrir. Subimos os carreiros do cemitério, lentamente, como se quiséssemos honrar aquele silêncio.
Alguns descendentes de soldados caídos em combate circulavam por ali, fomos cumprimentados em alemão, como se fôssemos também familiares, algumas crianças brincavam alheias à barbárie que 62 anos tivera lugar ali. De tudo o que vi o que mais me custou foram as cruzes onde se lia apenas “Ein deutscher soldat”.
Quando voltámos, subimos o Monte Cassino, vimos o cemitério polaco de longe, vimos o cemitério aliado de cima e de bem longe. Mas já chegava de mortos naquele dia.
Barreiros 680