Entraram na sala com uma altivez que surpreendeu Gournay; pois, além de virem vestidos como príncipes, trazia cada um o seu servente com os instrumentos. O cavaleiro esperava qualquer coisa de muito raro; mas não pôde deixar de rir, quando eles começaram a tocar à maneira dos jograis, que, nas aldeias de França, andam pedindo pelas tabernas.
O rei quis saber as razões da sua mofa e ficou verdadeiramente espantado quando o cavaleiro lhe assegurou que aqueles instrumentos eram próprios dos cegos e dos pedintes, a quem se dava esmola, depois de tocarem duas ou três vezes, como aqueles jograis, que o rei tanto prezava.
D. Pedro ficou tão envergonhado que jurou não mais servir-se deles; despediu-os no dia seguinte; não queria ter na sua corte gente que o desonrava perante os estrangeiros, que o cobriram de ridículo, quando disseram que o Rei de Portugal não tinha maior prazer que ouvir jograis de viola, que são por toda a parte da Europa tão vulgares e tão desprezados.
Collection compléte des Mémoires relatifs à l'Histoire de France,
Paris, 1824, tome IV, 381-382
trad. M. Rodrigues Lapa, Lições de Literatura Portuguesa. Época Medieval, 3ª edição, Coimbra: Coimbra Editora, 1952: 279-280
E já agora, se concordas com José Pacheco Pereira, porque deixas a opção de anonimato em "Seleccionar uma identidade"?