Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 14:40

Qua, 27/06/07

DESPORTOS

“Trouble Every Day” fala dos tumultos em Watts, dos acontecimentos filtrados pela competição comercial nas estações de televisão. Os desportos são referidos como um indicador de desconfiança do meio de comunicação.
Podes acalmá-la, podes excitá-la
Porque, minha querida, não preciso dela
Pega na televisão e enfia-a na boca
Juntamente com a porcaria toda do desporto
E todas as notícias não confirmadas
Vejo essa caixa pestilenta, sabes
Até ficar com dores de cabeça
Por ver como os jornalistas dizem que chegam à porcaria
Antes dos tipos do canal tal e tal
E depois afirmam...*
Em 1974, “Excentrifugal Forz” de Apostrophe é uma reescrita em ficção científica de “Trouble Every Day”. Também faz lembrar o foguetão de cartão do Estúdio Z: os televisores domésticos como portinholas do mundo exterior, os desportos como epítome da alienação.
As nuvens são mesmo falsas
Quando as vejo através das portinholas
Das quais tenho praí uma dúzia
Segundo os meus rendimentos
Nunca imaginaste que pudesse ter tantas
Pois nunca me interessei por desporto**
Nas “vulgaridades biográficas” de Freak Out!, Zappa diz, “eles” nunca me deixaram ser capitão da equipa de softball. Seja apócrifo ou não, este facto é simbólico do seu estatuto de intruso. Quando lhe foi pedido, em 1966, por Michael Vosse, que descrevesse a sua mulher de sonho, Zappa deu uma lista interessante de nãos que começa por desporto. “Sem qualquer interesse por desporto, sol, desodorizantes, batôn, pastilhas elásticas, tetracloreto de carbono, televisão, gelados... nenhuma destas coisas!”
Em Inglaterra, as claques de futebol são há muito tempo o escape da juventude trabalhadora, normalmente facciosa e frustrada. Apesar da recíproca fertilização entre a cultura rave do final dos anos 80 e o futebol (que mostrou que a utilização que a direita faz dele não é inevitável), não nos surpreendemos quando vimos a irmandade ariana neo-nazi instigar um motim racial entre adeptos de futebol ingleses e emigrantes libaneses que assistiam ao Campeonato Europeu da Suécia de 1992. O espectáculo tira poder ao espectador, que só se encontra através da violência, a única altura em que os meios de comunicação dão atenção aos adeptos e não aos jogadores. De um jogo displicentemente jogado nas ruas das cidade do século dezanove até à suspensão de negócios durante dias a fio, o futebol tornou-se um bem de consumo oferecido por especialistas.
A seguir à vitória da Inglaterra na Taça Mundo, os adeptos ingleses foram para as ruas de Alcester. Seis pessoas iniciaram um inadequado jogo de futebol nos semáforos da Station Road, apoiados pela assistência. Mas o jogo chegou a um fim prematuro quando os agentes locais confiscaram a bola e a multidão foi para casa.
Esta impotência significa que o desporto tem sido geralmente o último reduto da direita, desde o seu conformismo na escola até ao ritual nacionalista dos Jogos Olímpicos. A descrição que Adorno faz da maneira como a indústria cultural reduz tudo ao desporto qualifica altamente a rejeição de Zappa (e antecipa vinte anos a adopção da televisão do formato competição/jogo-espectáculo em todos os assuntos – incluindo eleições).
O desporto em si mesmo não é jogo mas ritual onde o sujeitado celebra a sua sujeição... a paixão pelo desporto, onde os mestres da cultura de massas se apercebem da verdadeira base massiva do seu poder ditatorial, é sustentado neste facto. Uma pessoa pode fazer de mestre quando inflige dor em si própria e nos outros através de uma espécie de repetição compulsiva... é esta a escola para a integração que finalmente venceu politicamente ao transfomar a impotência numa bando de hooligans que aplaudem. É permitido a uma pessoa infligir dor de acordo com as regras, ser maltratado de acordo com as regras e as regras verificam a sua força de modo a justificar a fraqueza como força: os heróis do ecrã gostam de ser torturados nos filmes. As regras do jogo fazem lembrar as do mercado, oportunidades iguais e justiça para todos, mas só enquanto for a luta de todos contra todos.
A crítica abstracta de Adorno parece uma análise psicoanalítica do desdém de Zappa. Se o conceito de Adorno é insuficiente em relação ao mal infligido à subjectividade pelos meios de comunicação do capitalismo, então a violência e veneno de Zappa permanecem opacos, as suas percepções meramente idiossincráticas e grosseiras. O acordo das ideias de Adorno e a arte não-escolástica de Zappa demonstra também a falta de arbitrariedade do homem de Frankfurt, a precisão do seu protesto.
No desporto, os espectadores aceitam os limites de maneira a poder “apreciar” os resultados, negando precisamente a infinita promessa do prazer absoluto. A insistência de Zappa pelo jogo aberto – alcunhado de “auto-indulgência” pelos rabujentos da imprensa rock, que reduzem toda a música a desporto (competição para os lugares nos tops) – é uma visão de resistência ao modo como o capitalismo só consegue compreender qualquer coisa como meio de fazer lucro. Na curta história “SPQR”, o escritor de ficção científica Kim Newman imagina uma sociedade onde o desporto, as séries e as notícias se tornaram insignificantes, uma história que actualiza a visão adorniana (como só as artes marginais à corrente liberal – SF, banda desenhada, poesia de Cambridge, hardcore – parecem ser capazes de fazer). A rejeição do desporto que Zappa advoga é um extremo da rejeição daquilo que os situacionistas chamavam espectáculo.
O hipnotismo do espectáculo substitui a vida vivida e torna-a uma observação passiva das actividades dos famosos e bem sucedidos que transformados em “factos objectivos” inegáveis e imutáveis como as estrelas. Este hipnotismo é precisamente o alvo de Zappa. Ao contrário dos tablóides, as vulgaridades de Zappa (um aspecto continuamente desacreditado nas críticas de discos) não dão pormenores sobre o geral conhecido mas apercebem-se da centelha surrealista de cada especificidade: declaram guerra à pseudo-ciência do desporto, ao modo como os comentadores de desporto transformam o jogo em algo homogeneizado, global e abstracto. Com as suas tristes aferições, os recordes mundiais e as opiniões experimentadas, o desporto é o epítome do espectáculo, a redução da variedade da vida a uma única medida. O jornal dadaísta Jeder Mann Sein Eigener Fussball (A Cada Um o Seu Futebol) deu o lema em 1917, em Berlim, demolindo precisamente a opressão do desporto, a passagem do jogo a competição. James Joyce deu-lhe uma torção extra: “para cada homem o seu guarda-ouro”***, adaptando-o à crise económica. A atitude de Zappa em relação ao desporto é uma chave para compreender o seu assalto dadaísta ao espectáculo.

* You can cool it you can heat it / 'Cause baby I don't need it / An' take your TV tube and eat it / An' all that phony stuff on sports / An' all the unconfirmed reports / You know I've watched that rotten box / Until my head began to hurt / From checkin' out the way the newsmen say they get the dirt / Before the guys on channel so-and-so / An' further they assert
** The clouds are really cheap / The way I seen 'em thru the ports / Of which there is about a dozen / On the base of my resorz / You'd never think I'd have too many / As I've never cared for sporz
*** de muito difícil tradução: "each man his own goaldkeeper"



Xavier @ 21:25

Sex, 29/06/07

 

A frase "...a arte não-escolástica de Zappa" diz muito. Se Zappa seguisse alguma orientação formalmente aceite, o seu trabalho tornar-se-ia arrumadinho, certinho, políticamente correcto, em suma: vulgar. Seria um jogo, uma competição pelos "Tops" de audições e vendas. Mas todos os que admiramos a sua música sabemos que não foi assim. Felizmente!