Podes acalmá-la, podes excitá-laEm 1974, “Excentrifugal Forz” de Apostrophe é uma reescrita em ficção científica de “Trouble Every Day”. Também faz lembrar o foguetão de cartão do Estúdio Z: os televisores domésticos como portinholas do mundo exterior, os desportos como epítome da alienação.
Porque, minha querida, não preciso dela
Pega na televisão e enfia-a na boca
Juntamente com a porcaria toda do desporto
E todas as notícias não confirmadas
Vejo essa caixa pestilenta, sabes
Até ficar com dores de cabeça
Por ver como os jornalistas dizem que chegam à porcaria
Antes dos tipos do canal tal e tal
E depois afirmam...*
As nuvens são mesmo falsasNas “vulgaridades biográficas” de Freak Out!, Zappa diz, “eles” nunca me deixaram ser capitão da equipa de softball. Seja apócrifo ou não, este facto é simbólico do seu estatuto de intruso. Quando lhe foi pedido, em 1966, por Michael Vosse, que descrevesse a sua mulher de sonho, Zappa deu uma lista interessante de nãos que começa por desporto. “Sem qualquer interesse por desporto, sol, desodorizantes, batôn, pastilhas elásticas, tetracloreto de carbono, televisão, gelados... nenhuma destas coisas!”
Quando as vejo através das portinholas
Das quais tenho praí uma dúzia
Segundo os meus rendimentos
Nunca imaginaste que pudesse ter tantas
Pois nunca me interessei por desporto**
A seguir à vitória da Inglaterra na Taça Mundo, os adeptos ingleses foram para as ruas de Alcester. Seis pessoas iniciaram um inadequado jogo de futebol nos semáforos da Station Road, apoiados pela assistência. Mas o jogo chegou a um fim prematuro quando os agentes locais confiscaram a bola e a multidão foi para casa.Esta impotência significa que o desporto tem sido geralmente o último reduto da direita, desde o seu conformismo na escola até ao ritual nacionalista dos Jogos Olímpicos. A descrição que Adorno faz da maneira como a indústria cultural reduz tudo ao desporto qualifica altamente a rejeição de Zappa (e antecipa vinte anos a adopção da televisão do formato competição/jogo-espectáculo em todos os assuntos – incluindo eleições).
O desporto em si mesmo não é jogo mas ritual onde o sujeitado celebra a sua sujeição... a paixão pelo desporto, onde os mestres da cultura de massas se apercebem da verdadeira base massiva do seu poder ditatorial, é sustentado neste facto. Uma pessoa pode fazer de mestre quando inflige dor em si própria e nos outros através de uma espécie de repetição compulsiva... é esta a escola para a integração que finalmente venceu politicamente ao transfomar a impotência numa bando de hooligans que aplaudem. É permitido a uma pessoa infligir dor de acordo com as regras, ser maltratado de acordo com as regras e as regras verificam a sua força de modo a justificar a fraqueza como força: os heróis do ecrã gostam de ser torturados nos filmes. As regras do jogo fazem lembrar as do mercado, oportunidades iguais e justiça para todos, mas só enquanto for a luta de todos contra todos.A crítica abstracta de Adorno parece uma análise psicoanalítica do desdém de Zappa. Se o conceito de Adorno é insuficiente em relação ao mal infligido à subjectividade pelos meios de comunicação do capitalismo, então a violência e veneno de Zappa permanecem opacos, as suas percepções meramente idiossincráticas e grosseiras. O acordo das ideias de Adorno e a arte não-escolástica de Zappa demonstra também a falta de arbitrariedade do homem de Frankfurt, a precisão do seu protesto.
No desporto, os espectadores aceitam os limites de maneira a poder “apreciar” os resultados, negando precisamente a infinita promessa do prazer absoluto. A insistência de Zappa pelo jogo aberto – alcunhado de “auto-indulgência” pelos rabujentos da imprensa rock, que reduzem toda a música a desporto (competição para os lugares nos tops) – é uma visão de resistência ao modo como o capitalismo só consegue compreender qualquer coisa como meio de fazer lucro. Na curta história “SPQR”, o escritor de ficção científica Kim Newman imagina uma sociedade onde o desporto, as séries e as notícias se tornaram insignificantes, uma história que actualiza a visão adorniana (como só as artes marginais à corrente liberal – SF, banda desenhada, poesia de Cambridge, hardcore – parecem ser capazes de fazer). A rejeição do desporto que Zappa advoga é um extremo da rejeição daquilo que os situacionistas chamavam espectáculo.