Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 12:30

Sab, 29/09/07

'O ORÁCULO PREVIU TUDO'

Em 28 de Junho de 1968, a Life Magazine publicou um artigo de Zappa sobre a história do rock, intitulado 'O Oráculo Previu Tudo'. Nele, Zappa aparecia mais descontraído e benigno sobre a cultura rock do que é normal: ao lhe ser oferecida a hipótese de expor o seu próprio ponto de vista, havia menos necessidade de usar tácticas de choque para desvirtuar as palavras chave que servem a indústria. Numa das partes há um questionário em duas secções que faz perguntas sobre vários aspectos do folclore subcultural dos anos 50 e a seguir sobre os anos 60: tal como Ruben satirizava a contracultura: comparando movimentos e balanços com a desdenhosa herança pré-hippie e também registando o que era o genuíno progresso para Zappa.
A sociedade era sexualmente muito reprimida, dançar era uma tentativa desesperada de obter contacto com o sexo oposto. O amor livre, as groupies, as Plaster-Casters of Chicago e outras variantes, as GTO's de Laurel Canyon não existiam.
Zappa explica que quando era adolescente só gostava de R&B negro, mas admite que mesmo assim, o filme Rock Around the Clock tinha sido uma verdadeira revelação para ele. Não interessava que o Bill Haley fosse um rechonchudo expoente de meia-idade de carapinha absurda do swing da Costa Oeste.
Em quartos sujos de adolescentes, por toda a América, os miúdos precipitaram-se para os velhos rádios e gira-discos baratos para ouvir a 'música suja' do seu estilo de vida. ('Se queres ouvir essa porcaria vai para o teu quarto... e põe o volume baixo'.) Mas no cinema, a ver Blackboard Jungle, não podiam pedir para pôres o volume baixo. Não interessava que o Bill Haley fosse branco ou sincero... estava a tocar o Hino Nacional da Juventude e tocava-o tão ALTO que eu saltava. Blackboard Jungle, não considerando sequer o roteiro do filme no qual os velhos ganham no fim, representou uma estranha espécie de 'apoio' da causa adolescente: 'Fizeram um filme sobre nós, logo, existimos...'
Esta atenção ao contexto é modelo da análise material. Muitas vezes o debate cultural (será que Bill Haley presta?) fica atolado em dissertações irreconciliáveis que pretendem discutir sobre um trabalho artístico ideal, ignorando a situação onde é reconhecido. No mundo clássico, Pierre Boulez presta atenção semelhante aos factos materiais do som: a configuração das salas de concerto, as combinações possíveis de instrumentos. Zappa prossegue então as especulações de Lumpy Gravy sobre os possíveis efeitos da música num universo feito de vibrações. Entra no domínio da fantasia, mas nunca deixa a base material. As citações de Hal Zeiger, um dos primeiros promotores dos anos 50, dão-nos uma visão organizadora do rock 'n' roll, a milhas da mitologia que apoia a cultura rock dos E.U.da A.
Zappa explica a evolução da batida básica do rock 'n' roll (4/4 com acentuação no 2 e no 4 mais tercinas: 'ya-da-da ya-da-da ya-da-da ya-da-da-womp') mergulhada nos melhoramentos de estúdio e nas técnicas de gravação. O R&B dos primórdios não podia ser gravado com outra coisa mais forte que escovas para a bateria (o som limpo e a complexidade vacilante das batidas hip hop tal como foram desenvolvidas pela tecnologia dos anos 80 confirmam-no). Lamentam-se as versões brancas de canções de R&B que 'limpavam' as letras e o uso de cordas para as tornar aceitáveis.
O rock branco, excessivamente produzido e brilhante, quase se suicidou. (Lembram-se de Fats Domino com 'cordas'?) A música afundava. Seria o fim do rock? Estávamos condenados a uma nova era de melodias folclóricas, suavizadas com vaselina? Então, na hora H, a Beatlemania. Nova esperança.
Em Twilight of the Gods, Wilfrid Mellers fez um corajoso mas não convincente esforço para explicar a arte dos Beatles em termos formais. Zappa explica-a em termos de sexo – Elvis era demasiado gorduroso e sombrio, os Beatles eram abraçáveis e giros – dando uma dimensão sociológica que, como Susan McClary demonstrou, pode também proporcionar abordagens à música clássica que são negadas por análises puramente 'formais'. Zappa é optimista em relação ao modo como o público espalha a sua imagem musical e está agradecido às groupies. A peça finaliza com uma descrição incaracterística da experiência rock – o ficar bêbado a ouvir uma versão louca de 'Green Onions', tocada por um grupo local de rock 'n' roll (Ruben & the Jets) –, parece a experiência de uma outra geração com o punk rock ou o acid house. Acaba com uma pergunta: 'Será que uma força que possui este poder pode ser ignorada por uma sociedade que necessita de todos os amigos que possa arranjar?'
Nos anos 70, o grande crédito intelectual concedido ao pop levou a incursões de pretensão clássica que resultaram no bombástico e kitsch do 'rock progressivo' (Nice, Emerson, Lake & Palmer, Pink Floyd, Genesis). Nos anos 80, o pós-modernismo forjou uma ideologia onde a música clássica imita as (chamadas) simplicidades do pop (Reich, Glass, Nyman, Adams). Ambos os movimentos têm sido anunciados como soluções para a divisão de classe entre pop e clássico, quando de facto harmonizam apenas a banda sonora de um estilo de vida elevado, 'acima' da cultura popular. Zappa compreende o rock como experiência no contexto da existência social. As suas extensões da forma reconhecem o facto. Em vez de dar as boas vindas ao desejo de transcender a sociedade, a sua estética é o materialismo sociológico: limites sociais trabalhados nos processos musicais.



Xavier @ 15:49

Sab, 29/09/07

 

A visão de Zappa do Rock como "experiência" é legítima, no seu início e no contexto da sua época. Pessoalmente não considero o 'rock progressivo' como kitsch. Gosto dos Emerson, Lake & Palmer, dos Pink Floyd e dos Genesis, aceitando-os como uma evolução (não necessariamente boa, talvez não para melhor, mas adaptada a realidades sociais diferentes.) do rock 'n' roll primitivo.

Anónimo @ 17:10

Sab, 29/09/07

 

Também acho. Não considero o rock progressivo, pelo menos dos primeiros anos, kitsch. O próprio Zappa colaborou em espectáculos ao vivo com os Pink Floyd, demonstrando que o seu desrespeito para com os estilos era transversal a todos os géneros de música.
Mas acho que Ben Watson quer apenas reforçar mais uma vez o facto de que o rock foi progressivamente perdendo o seu carácter materialista e de urgência que tinha adquirido nos primeiros anos e que era ao mesmo tempo a sua força motora.

Anónimo @ 22:19

Sab, 29/09/07

 

Compreendo o que queres dizer, Anónimo, quando te referes a Ben Watson. O próprio Miguel Silva não o diria melhor.

Anónimo @ 14:16

Dom, 30/09/07

 

:-)