O capitalismo desenvolve-se e os artistas tornam-se cada vez mais sensíveis aos efeitos da exploração económica da sua arte. A produção em massa torna os trabalhos artísticos consumíveis a uma escala até então nunca sonhada, mas em troca transforma a arte em produtos cuja circulação beneficia o sistema – tanto financeiramente (gerando lucros), como ideologicamente (criando a ilusão de que é a única maneira de como as coisas devem ser). Todos os movimentos artísticos significativos do século vinte tentaram lidar com o dilema. Freak Out! usou canções pop e técnicas de publicidade para transmitir a mensagem de freaking out, que quer dizer o centrar da criatividade na actividade de cada um.A nível pessoal, freaking out é o processo onde um indivíduo rejeita padrões de pensamento, maneiras de vestir e etiqueta social restritas e fora de moda, e exprime CRIATIVAMENTE a sua relação com o meio ambiente e a estrutura social no seu todo. Indivíduos menos inteligentes têm-se referido às pessoas como nós que escolhem esta maneira de agir e SENTIR, como 'freaks' , daí o termo: freaking out. A nível colectivo, quando um qualquer número de 'freaks' se junta e se expressa criativamente através de música ou dança, por exemplo, é genericamente referido como FREAK OUT. Os participantes, já emancipados da escravatura social nacional, vestidos no seu mais inspirado aparato, apercebem-se colectivamente de qualquer potencial que possuam para a livre expressão. Queríamos encorajar toda a gente que OUVE a música a juntar-se a nós... tornando-se membro d'As Mutações Unidas... FREAK OUT!De alguma maneira, esta declaração usa apenas termos sociológicos para reassumir o modo como a música negra usa a indústria discográfica para disseminar uma cultura envolvente que desafia a alienação implícita na compra de música impressa em peças de plástico. A música negra desafia a antinomia tradicional da filosofia ocidental entre o particular e o geral, entre participação física e objectividade universal: daí o significado crucial que possui em qualquer compreensão daquilo que o capitalismo tem feito à cultura. O facto de a música de massas do pós-guerra conseguir articular o sujeito (algo com que Adorno nunca sonhou) está intimamente ligado à emancipação dos negros nos Estados Unidos e distancia-se de um dos princípios centrais da ideologia capitalista desse país: o racismo.
Com as suas canções de pop dissonantes e provocações anti-universitárias, Freak Out! representava uma síntese sagaz de sinais comerciais e subversivos, mas não competia para o enfraquecimento do tema. O inimigo era a Avenida Madison, pop oco, bandas que não diziam 'foda-se' em palco. Absolutely Free prosseguiu a mesma linha de ataque a todas as coisas plásticas e conformistas. Mas em We're Only in It for the Money Zappa já tinha reconhecido que a 'contracultura' se tinha tornado, ela própria, um produto, um novo conformismo. O disco constrói a crítica contrapondo o movimento freak aos hippies.Antes em dócil e arriscada rotaO culto do gótico, que ostenta os adornos do 'mal' numa sociedade em que a falsa piedade comete monstruosidades, foi outra resposta a estes desenvolvimentos, criando figuras literárias – Frankenstein, Drácula – que fazem parte da cultura-B admirada por Zappa e pelos Cramps. Zappa voltaria mais tarde a estas formas vitais e populistas: aquilo que o preocupava em 1967 era o crescimento do poder das flores que parecia abarcar as ideias freak e ao mesmo tempo as atraiçoava.
O homem justo prosseguiu seu curso ao longo
Do vale da morte...
Até o vilão deixar os trilhos da facilidade
E andar por arriscados trilhos, e conduzir
O homem justo para climas estéreis
Esta foi a maior subida (ou descida) da música pop, do público, da América e do próprio grupo que alguma vez testemunhei. Como músicos eram extraordinariamente bons e o espectáculo foi apresentado profissionalmente. Mas, francamente, qual é a piada? Um concerto inteiro de coisas ridículas e cáusticas, tanto musicais como verbais – ainda que bem feito – é apenas uma chatice.O símbolo do cabelo comprido era inutilmente vago. Por exemplo, as cartas que se queixavam da fotografia em roupas femininas na capa da Melody Maker denunciavam — poder das flores!
Frank Zappa deve estar a gozar! Batôn e carteiras era o que fazia falta, ou os leitores da MM gostam dele assim mesmo? A que estado patético chegou a cena pop para ter de se vestir como ele para vender discos. O poder das flores é outra loucura iniciada pelos ianques, os nossos ingénuos fãs e os grupos deixaram-se ir nela. Agradeço a Deus pelo Tom Jones.O poder das flores era, claro, uma mistura de elementos. Em Nova Iorque, Frank Zappa tinha tocado num espectáculo de beneficência com Allen Ginsberg, cuja confiança em gurus indianos duvidosos, mantras e grinaldas de flores tinha como objectivo propagar a furiosa subversão homossexual, revolução e amor livre. Provavelmente pode-se culpar Ginsberg de muito – o homem cujo grande poema 'subversivo' "Howl" começa com o elitismo sentimental da frase 'as melhores mentes da minha geração' –, mas é preciso lembrarmo-nos da selectividade dos meios de comunicação. As inexoráveis celebrações de Ginsberg e da sua beleza do sexo anal e da revolução parecem nunca aflorar como definições do poder das flores. Da mesma maneira, as conquistas de Thelonious Monk e Charlie Parker não são de modo nenhum invalidadas pelo capricho 'bem informado' de 1948.
E.H. Tull, Abingdon, Berks
Contudo, houve falhas no coração da mentalidade hippie que a fizeram cooperar com a indústria discográfica. O acomodar dos hippies à sociedade de classes foi exprimido pelo idealismo que reciclava um dogma da ideologia da classe-média: a crença de que os verdadeiros valores estão acima do comércio, além do aqui-e-agora da sociedade material. Ao contrário do rock 'n' roll, significava que a relação com o público de massas só podia ser hipócrita. Explica por que é que as bandas hippies eram invariavelmente fotografadas no campo: o 'não-comercial' (contrário do anti-comercial de Zappa) flutua, intemporal, na natureza idealizada. Em contraste, Absolutely Free pegou na visão de uma cidade de cartão bloqueada pelo tráfego.As pessoas pensam que o rock de São Francisco tem um valor cósmico e isso tudo, mas é música fabricada e a música fabricada é inútil... esperava maravilhas e milagres mas só ouvi um punhado de bandas de blues que não eram mais funky que a minha banda da faculdade.O ouvido materialista de Zappa corta com a névoa de incenso da ideologia, usando a lógica rude dos blues. No jornalismo pop – que se orgulha de revolver os imponderáveis da moda – tal atitude nunca seria popular.
 
 
Zappa criou a sua ideologia através do seu pseudo materialismo: Tudo o que é redondo é aborrecido (o indivíduo rejeitando padrões de pensamento, de moda, etc.). Queria a transformação total, mas acabou por fazer, ele próprio, um círculo. A sua “contracultura” tornou-se um molde para uma maneira de estar, um hábito, no fim apenas para mais uma moda: FREAK OUT.
Não nego a necessidade social do centrar da criatividade na actividade de cada um mas não foi o próprio Zappa que, segundo Watson, acabou por reconhecer que, afinal, SÓ ESTAMOS NISTO PELO DINHEIRO?
Observação pessoal: Vejo que continuo a inspirar-te para alguns Posts. O meu Ego cresceu 2 cm. :-)
Abraço