Quando pelos jardins passavam as hirtas e rígidas escravas
quebradas na cintura pelos seus cintos de seda
e era bem mais fácil manter o equilíbrio estival da humidade dos pés
quando os homens se compraziam em falar do vento
a propósito do movimento vivo ou lento dos canaviais
a associar tempo e vento para decretar
que coisas idas com o vento não regressam mais
quando a prosperidade vinha nessa mansa sujeição aos frutos anuais
e casos de prudência e fortaleza eram minuciosamente inscritos nas crónicas reais
quando os alicerces da alegria se cavavam nesse fumo branco que subia dos altares
e não se dava o nome de humildade à coragem mais íntima
nem o de ingratidão ao facto de banir um cortesão qualquer
pois inúmeras vítimas conviviam com os reis
quando o tédio não era em tempo prósperos
a inútil herança de uma antiquíssima experiência
e não havia encontros com as trevas nem desejos
satisfeitos jamais se mais se prolongavam e se renovavam
quando as árvores de ariccia protegiam ainda os sacerdotes de diana
e as pátrias não eram como agora o sítio onde se morre
quando um homem qualquer concedia a outro homem
a gratuita palavra capaz de conferir a um destino efeitos suspensivos
debaixo de arcos do passado junto de pedreiras protectoras de alguns vagabundos
de uma lentidão de certo modo mágica
e mesmo levemente inquietante
sem escamas nem esporões possivelmente próprios mais de deuses
habitantes um tempo de uma terra plana à força de submissa
quando a solidão não era a vocação exclusiva de poetas
mas até de roseiras agapantos glicínias certas árvores
solidão mais sensível nessa sombra envolvente em certas épocas do ano
se a não sulcam uns olhos alguns passos de súbito recuperados
e secam nalguns muros os últimos musgos
quando a infância não assumia ainda as dimensões de uma cara
enorme mas inerme ante os que mais tarde a evocarem
quando as lágrimas não eram nesse tempo densas e fechadas como pedras
nem deixavam nos rostos indeléveis como
de certo modo deixam no trilho do seu canto os rouxinóis
quando não era solução a solidão conjunta dos conventos
mas eram lágrimas ou caras solidárias de vagares e de um certo convívio com o mal
e a esperança que existia servia a sua boa hora
e se dizia boa tarde com a consciência de que se dizia adeus
às vezes sem saber-se que era para sempre que se dizia adeus
e todo o tempo se passava em coisas de imaginação
sem arriscar demasiados movimentos
até pela simples razão de que as rajadas da luz
eram a bem dizer as únicas estradas
na maior simplicidade geográfica dos sítios
nos rubis e ametistas mesmo nas primeiras pérolas kepta
não integradas todavia das alíneas anuais da moda
quando os homens ruminavam longamente a infância
e tinham à mercê adolescências muito prolongadas
fruíam com fervor o imenso favor da solidão
se os crepúsculos caíam numa luz lilás
que só vi uma vez em portalegre de uma janela da casa de josé régio
ou os cabelos das mulheres se prendiam nesta ou naquela das mais altas bouças de tojo
que dão àquele que passa a impressão de terem visto o verdadeiro amarelo
e as próprias mulheres recortadas no ar crepuscular
como ciprestes muitas vezes mas talvez umas horas mais tarde
quando perfuram decididamente a mais escura escuridão
e temos o pressentimento de que alguma coisa vai por fim acontecer
Ruy Belo, A Margem da Alegria, Editora Presença.