Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 02:14

Ter, 01/07/08

INCORPORAÇÃO NO ROCK

O facto de o inglês ser a língua dominante nos Estados Unidos atribui uma falsa transparência às comunicações anglo-americanas. Os americanos dão-se bem com o desdém inglês relativamente ao comercialismo mas não sem uma incredulidade particular (normalmente o próprio desdém é uma improvável confusão entre resistência proletária e snobismo aristocrático em que é difícil acreditar). Zappa apareceu na televisão inglesa em 1968 e declarou ‘temos de parar a América antes que ela dê cabo do mundo e cague em cima de nós’, ao mesmo tempo, a música que apresentou – uma peça de rock ‘n’ roll improvisado – Roy Estrada a cantar em falseto ‘oh, in the sky!’ –, era pura estupidez americana, alicerce da arte de Zappa.
O perigo é a simplicidade das ligações. Os críticos queixaram-se do ‘suporte insistente, e quase depressivamente profissional’ de ‘Dinah-Moe Humm’ de Overnite Sensation, como se o amadorismo fosse garantia de autenticidade (e os Beatles ainda não tivessem lançado nenhum disco). A ideologia da arte ‘alternativa’ tem sido sempre atacada pela forma fetichista, que apoia sempre esta ou aquela característica externa como marca de virtude. Nos termos da multivalência de sinais no mundo real, é como tentar pintar as unhas dos pés com galochas calçadas.
Ao aderir a formas musicais e a possibilidades diferentes de públicos que tinham sido colonizados pelo mercado, a contracultura estava reduzida a critérios morais não estéticos. Num comunicado de imprensa de 1978, ao promover um conjunto de bandas de rock ‘alternativo’ de toda a Europa, o Rock In Opposition caracterizou os Henry Cow da seguinte maneira:
São o único grupo político e musicalmente progressivo do país que conseguiu emergir e sobreviver (nove anos). A única pessoa que cobriu o mesmo terreno que eles foi Frank Zappa e este já acabou há muito tempo. Os Henry Cow ainda sabem como é.
Como é o quê? A música é agradavelmente excêntrica, mas são apenas versões suaves dos instrumentais dos Mothers. A crença no rock alternativo – com o empolado clímax político do punk que em 1978 apoiou o Rock Against Racism e o 2-Tone – são apenas lágrimas hippies sobre leite derramado. O punk, pelo menos, reconheceu que a comercialização do rock progressivo dos Led Zeppelin e dos Genesis era um facto da vida. Nada faria ressuscitar os bons velhos tempos de Ginger Baker e Mitch Mitchell com espírito de Elvin Jones. As individualidades dos Henry Cow gravitavam na vanguarda da improvisação livre, evitando pensamentos populistas. Claro que os músicos não podem ser julgados pelos ideólogos que fazem uso deles: Fred Frith e Tim Hodgkinson, nomeadamente, criaram música importante nas décadas que se seguiram. Frith acabou a tocar punk – doze anos mais tarde – nos temas de John Zorn dos Naked City. O zigzaguear de Zorn por entre as abstracções e a música comercial enganosa, parece muito Zappa (e porque começou quinze anos depois, bastante diferente também). O baterista Chris Cutler fundou a Recommended Records (mais tarde a These Records), que durante os últimos dez anos nos tem proporcionado uma fonte contínua de música ‘anti-comercial’ com vários graus de mérito.
É importante perceber o que aconteceu à música rock ‘underground’ entre os anos dos Mothers e a altura em que Overnite Sensation foi feito: a inclusão numa indústria tão apertada como o pre-rock de Tin Pan Alley. Como Marc Eliot diz: ‘Muito longe de representar a ameaça que as suas críticas políticas e sociais o possam um dia ter feito parecer, o rock ‘n’ roll tornou-se a espinha corporativa dos divertimentos americanos.’