CAPÍTULO 1
ORIGENS
No The Real Frank Zappa Book, Zappa atribui esta necessidade de esconder o passado italiano à posição assumida pela Itália na Segunda Guerra Mundial. Ele brinca com o desprezo pelos “rústicos” e com a insistência dos pais para o levarem a um dentista italiano. Cresceu na urbanização militar de Edgewood, Maryland.Tínhamos dois problemas. Um era a Autorização Especial de Segurança; o outro era o facto de o meu pai ter nascido na Sicília e a minha mãe ser da primeira geração de pais italianos e franceses. Na maior parte dos sítios onde vivemos, qualquer pessoa que não fosse cem por cento branca e americana era uma ameaça à sociedade, sabias? E estar associado a alguém com parentescos estrangeiros tornava-me a vida difícil e tornava-lhes a vida difícil. Eu nunca compreendi todo este aspecto da vida americana.A família Zappa também mudava muito de casa. Passou um breve período de tempo na Flórida, o que fez melhorar um pouco a saúde de Frank, e depois voltou a Edgewood. Pouco tempo depois, em 1950, a família mudou-se para Monterey, na Costa Oeste, onde o Frank Sénior conseguira emprego a ensinar metalurgia na Escola de Pós-Graduação Naval. Ficaram lá três anos. Aos 12, Frank interessou-se por percussão e frequentou um curso de Verão com o professor Keith McKillop, aprendendo os rudimentos de percussão das bandas escocesas de gaitas-de-foles (a mesma base usada por muitos bateristas de jazz).
Punham os miúdos de onze e doze anos alinhados numa sala. Não havia percussões, eram apenas umas pranchas – não havia almofadas, era uma tábua sobreposta em cima de umas cadeiras – toda a gente se punha em frente da tábua e fazia ra-tle-ti-tat. Não tive uma bateria a sério senão aos catorze ou quinze anos, todo o treino fora feito no quarto, em cima de uma secretária – uma peça de mobiliário, outrora bela, que algum italiano perverso pintara de verde – que ficou com o tampo todo marcado pelas baquetas. Finalmente, a minha mãe acabou por me oferecer um instrumento de percussão e deixou-me praticar na garagem – uma tarola.Foi o desenvolvido sentido rítmico de Frank que lhe tornou possível criar música que é efectivamente uma terceira corrente entre a música clássica e o rock, portanto este passado das percussões é altamente significativo.
Sou novo na tua faculdade
Não tenho nenhuma miúda que chame pelo meu nome
Sou novo na tua faculdade
Não tenho nenhuma miúda que chame pelo meu nome
O meu pai trabalha para o governo e por isso
Estou sempre a mudar de escola – que desgraça
‘Tou para aqui a resmungar no pátio da escola
Desejo que alguém saiba o meu nome
‘Tou para aqui a resmungar no pátio da escola
Desejo que alguém saiba o meu nome
Só Deus sabe como isto me dói e preciso de amigos
Por que é qu’as pessoas não entendem a minha dor?
Embora seja uma versão bem humorada de um blues depressivo – que gradualmente se transforma em rock ‘n’ roll quando o Ned se decide revelar às raparigas – há algo de comovente no escárnio da elocução e na guitarra desaustinada. O sentido de exclusão da principal corrente de cultura americana corre bem fundo em Zappa: mais do que as políticas explícitas, alimenta a crença subversiva da sua arte. As citações da estreia comercial de Zappa, Freak Out!, a combinação de protesto e amargura, a paradoxal psicologia negativa do “sem potencial comercial”, encaixaram de tal maneira em Swamp Dogg (o cantor político do produtor de soul negro, Jerry Williams Jnr.) que este as reutilizou na íntegra no seu primeiro disco, Total Destruction to Your Mind.Costumávamos ir para casa do Ministro, o filho era pianista e eu ficava sentado na sala com duas panelas e um par de baquetas, tentando tocar um shuffle enquanto o Stewart Congden – o nome dele – tocava piano.Em 1956 mudaram-se para Lancaster, Califórnia, para o deserto do Mojave, perto de Palmdale. O Frank Sénior trabalhava na Base Aérea Edwards enquanto Zappa frequentava o liceu de Antelope Valley.