Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 16:10

Qua, 30/05/07

O Rei Gípcio Pomposo pediu-me que vos falasse dos Genesis com Peter Gabriel.
Não é que a música do grupo após a sua saída tenha perdido qualidade, mas, para mim, perdeu invenção e atmosfera lírica. Segredos e esquinas. Grandes planícies de luz e florestas polvilhadas de alaúdes. Um neo-romantismo de fábulas e histórias desenterradas das profundezas da imaginação. Eu gosto desta música que consegue narrar vários acontecimentos. Não gosto de música que não me surpreende nas suas vira-voltas. Não adoro o minimal. Gosto de ser sobressaltado. Sinto-me vivo assim.
O rock tinha batido no continente europeu nos anos 60 e começava a propagar-se a uma velocidade estonteante. Fazendo uso de novos instrumentos. Novas gravações. Novos sons. Estas invenções de Peter Gabriel, complementadas pelas composições de Banks e Rutherford, as segundas-vozes melódicas de Steve Hackett, a bateria agreste e em tempo bem real de Phil Collins criaram belos discos e composições que ficarão sempre na história do rock progressivo dos anos 70. "Supper's Ready" permanecerá como um dos mais emblemáticos temas, talvez pelo fôlego necessário para tocar e gravar tal sinfonia.
Começou tudo em 1967 quando um grupo de alunos da Escola Charterhouse, perto de Godalming, em Surrey, enviou uma gravação a Jonathan King que recentemente produzira o sucesso Everyone’s Gone to the Moon. O grupo era formado pelos Garden Wall – Peter Gabriel e Tony Banks – que corriam nos intervalos para ver quem chegava mais depressa ao piano, e os Anon – Mike Rutherford e Anthony Philips. A música, especialmente influenciada pelos Beatles, era eminentemente inglesa, sem vislumbres de rhythm & blues ou jazz. Jonathan King gostou das composições de Philips e Rutherford, agora complementadas por Gabriel e Banks, mudou-lhes o nome inicial – Gabriel’s Angels – para Genesis, e propôs a gravação de um single: The Silent Sun, em fevereiro de 1968. O disco não chegou aos tops, mas Jonathan King manteve-se firme na aposta e propôs-lhes a gravação do que viria a ser From Genesis to Revelation. O primeiro álbum (que saiu em março de 1969, com o baterista John Silver) era uma tentativa de contar a história da evolução da humanidade através de referências bíblicas (apropriadas ao nome do grupo). As canções tinham nomes como In the Beginning e The Serpent. A música era fortemente acústica onde já se destacavam a voz e letras de Gabriel. O disco abria com Gabriel a cantar a capella: "We’re waiting for you / Come and join us now". Sintomático de um grupo que se queria afirmar e rebentava de criatividade por todos os poros.
O disco não vendeu mais de 700 cópias, na altura. O grupo acabou a tocar o que podia e onde podia. Contratou um novo baterista, John Mayhew, e procurou concertos. O primeiro que deu foi para uma festa de crianças, por 25 libras. Tempos difíceis!
As letras eram cuidadas e produziam efeitos devastadores: "Leaving all the world to play they disappear / And the leaves have gathered dust to run like deer / Tearing pieces from our lives to feed the dawn / Mist surrounds the seagulls christened by the storm".
Um dia aconteceu algo que lhes despoletou a invenção. Tocaram uma versão de 19 minutos de The Knife de tal modo que arrebataram o público que ficara o tempo todo sentado a ouvir atentamente. A banda começava a jogar com a táctica dinâmica de hipnotizar a assistência com música calma, tocada por guitarras acústicas e flauta para depois explodir numa cascata de som. Isto demonstrava, forçosamente, cuidado na estrutura das canções, nos arranjos muito apoiados nos variadíssimos sons que os teclados proporcionam, mas também dramatismo e coragem para sair do normal bum-bap-bum-bum-bap a que o público rock estava habituado. Fosse como fosse, os Genesis prosseguiram a viagem por clubes desertos esperando serem descobertos por algum milagre bíblico. E foi o que aconteceu.
Em 1970, Tony Stratton-Smith viu-os tocar para uma mão cheia de pessoas no Ronnie Scott’s Club – um clube de jazz(!) da rua Frith, no Soho, em Londres. Tinham sido contratados para tocar lá às terças-feiras. Tony era executivo da editora Charisma (a mesma dos Van der Graaf Generator) e propôs-lhes a gravação de um novo álbum: Trespass, que saiu ainda em 1970.
À medida que estas negociações decorriam, os concertos subiam de qualidade. Gabriel começava a destacar-se. Quem era aquele rapaz magrinho de voz esganiçada que dizia uns poemas estranhos ao microfone? As letras das canções eram cantadas com clareza arrepiante, ora sussurradas, ora gritadas, ora teatralizadas – nenhuma palavra era deixada ao acaso. Gabriel contava histórias que roçavam o naturalismo e o surrealismo.
Assistir a um concerto dos Genesis começou a tornar-se uma experiência diferente e empolgante. Embora fossem inexperientes e estivessem sempre nervosos em palco, devido ao facto de nem sequer saberem ligar um PA, o que fomentava algumas discussões de bastidores, o grupo ganhava voz e identidade próprias. Trespass inicia o caminho que será reconhecido como o período mais produtivo e imaginativo. Um disco com 6 composições, 5 delas com cerca de 7, 8 minutos onde se pode ouvir o que o grupo experimentava ao vivo.
Apoiado nas letras apocalípticas de Gabriel e nas composições de Banks e Rutherford, o grupo grava um disco corajoso e ambicioso, onde cada pormenor conta. Como no primeiro álbum, Gabriel começa o disco a capella: "Looking for Someone / I guess I’m doing that". É difícil esquecermo-nos do tom da voz de Gabriel nesta entrada.
Daí até pérolas como Stagnation ou Visions of Angels é um curto passo. Em The Knife Gabriel torna-se ameaçador. Na epígrafe da letra da canção lê-se: For those that trespass against us. E mais tarde na canção: "Now, in this ugly world, it is time to destroy all this evil. Now, when I give a word, are you ready to fight for your freedom? (…) Some of you are going to die, martyrs of course to the freedom that I shall provide".
Para trás ficam temas como White Mountain onde Gabriel conta a história sangrenta de um lobo e Dusk com a sua poesia: "See my hand is moving / touching all that’s real / And once it stroked love’s body / now it claws the past".
Contudo, no final da gravação do disco, Anthony Philips, agravado com todas as discussões e o facto de ter de compor em grupo, abandona os Genesis, tal como John Mayhew, e a banda tem de recrutar novos músicos. É um golpe rude para quem tinha acabado de nascer, mas o produtor mantinha a fé de que a força criativa destes músicos superaria o revés. E tinha razão. Ele e o grupo põem um anúncio para um baterista: “Sensível a guitarras de 12 cordas”. Ao anúncio responde Phil Collins que é chamado para uma audição em casa dos pais de Peter Gabriel. Phil ficou contente por constatar que na casa havia uma piscina, e enquanto os outros bateristas tocavam e se enganavam, deu umas braçadas ouvindo os temas que teria de tentar tocar. Quando chegou a sua vez, tocou com tanta confiança e segurança que foi contratado.
Agastada com as saídas de Philips e Mayhew, a banda foi profundamente abalada pela chegada de Phil Collins. O seu humor e piadas aliviaram o ambiente tenso, para além de ser muito melhor baterista do que os seus predecessores. Faltava um guitarrista. Desta vez foi a banda que o procurou. Steve Hackett tinha colocado um anúncio onde procurava um grupo que “quisesse ir para além de formas musicais estagnadas”. Parecia ideal para quem tinha de procurar uma voz nova e original. Com a inclusão destes dois novos músicos de eleição começa a segunda parte desta pequena história de um dos mais originais e interessantes grupos de rock dos anos 70.



Xavier @ 19:51

Qua, 30/05/07

 

Belos tempos! Quando ouvia essa música, fresca, contemporânea de acontecimentos tão relevantes para a História, sentia-me integrado, participante, cheio de vontade de mudar o mundo. Quem a ouve em 2007 pela 1ª vez, não pode sentir o mesmo, nem entender a importância que lhe dávamos. Agora são outros os sons, outras realidades. É bom ouvir falar dos músicos da geração de 60/70, pois é a minha. E antigas memórias de dias mais felizes libertam-se e fazem-me sorrir.
Obrigado.

Da Silva @ 00:01

Qui, 31/05/07

 

Ao que parece sou mais novo que tu. Quando os Genesis estiveram em Portugal em 1975 na digressão The Lamb Lies Down, eu tinha seis anos. A música a sério só viria para mim no final dos anos 70, com o punk-pop dos police e aquela coisa esquisita que era gostar dos queen! Só cheguei aos anos 70 em meados dos 80. É que os 80 eram mesmo muito maus...;-)
Não tens nada que agradecer. Ou por outra. Obrigado tu porque me deste uma ideia para um post. E não é a primeira vez. :-)