
No virar do século a Noruega vivia um dos seus períodos mais conturbados e interessantes. A capital, Cristiânia (mais tarde Oslo), fervilhava com uma vasta turba de intelectuais e artistas que partilhavam o amor pela arte e as novas filosofias sociais e entravam em confronto com a sociedade conformista do final do século XIX. Do meio desta azáfama boémia surgiram nomes que retrataram esta sociedade e que doravante permaneceriam ligados entre si:
Henrik Ibsen (dramaturgo) e
Edvard Munch (pintor).
Edvard Munch nasceu a 12 de Dezembro de 1863 em Løten. Iniciou os seus estudos em engenharia mas muito cedo desistiu. A pintura chamava por ele. Desde o início que toda a sua obra é caracterizada por uma vontade inexorável de expressão. Edvard Munch atravessou o naturalismo dos primeiros tempos, deixou para trás o impressionismo de Paris e o simbolismo de Berlim para fundar o expressionismo.
Na realidade, a ambição e o alcance da sua obra estão para além da própria vida do pintor. Munch transforma o mundo real numa paisagem da alma. Como ele afirma: «Eu não pinto o que vejo. Pinto o que vi.» A tela é o local onde congrega todas as suas angústias e neuroses, as tentativas de explicação do mundo e as suas esperanças.
No início da actividade, Edvard Munch foi assistente do já famoso pintor Christian Krohg com quem partilharia alguns temas: a obsessão com a morte, a doença. Seria este pintor a dar uma das melhores definições da arte e do génio de Munch: «Ele pinta as coisas, ou melhor, ele vê-as de forma diferente. Ele apenas vê o que é essencial, e escusado será dizer que isso é tudo o que ele pinta também. É por isso que os quadros de Munch estão geralmente “inacabados”, tal como as pessoas estão predispostas para o que não existe. Mas eles estão acabados, estão mesmo, eles são o seu próprio trabalho acabado. A arte está acabada, uma vez que o artista tenha dito verdadeiramente tudo o que lhe estava no seu coração.» Edvard Munch dizia que os seus quadros eram quase incompreensíveis e que se viam melhor quando agrupados uns aos outros. Neste sentido criou O Friso da Vida. Uma colecção de trabalhos divididos em quatro partes temáticas: O Despertar do Amor, O Amor Floresce e Morre, Angústia de Viver e Morte. Esta colecção foi exposta pela primeira vez na Alemanha em Berlim, em 1902. O artista falava sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade, temas que partilhava com o seu contemporâneo dramaturgo Ibsen e que moldariam a face da sociedade norueguesa.

Sobre esta colecção, o pintor diria mais tarde: «O Friso da Vida é concebido como uma série de pinturas que juntas representam um quadro da vida. Através de todas as séries corre a linha ondulante do litoral. Por detrás dessa linha está o mar sempre em movimento, enquanto que debaixo das árvores existe uma vida em toda a sua abundância, variedade, alegria e sofrimento. O Friso é um poema de vida, amor e morte (…) Os quadros que representam uma praia e algumas árvores, nos quais algumas cores continuam a repetir-se, recebem os seus tons predominantes da noite de Verão. As árvores e o mar fornecem linhas verticais e horizontais que são repetidas em todas as pinturas. A praia e as figuras humanas dão o cunho de vida a pulsar luxuriantemente – e as cores fortes relacionam todas as pinturas umas com as outras…»
Os seus quadros mais famosos são desta série: Madona (1894/95), O Grito (1893). Neste último, Munch consegue sintetizar de forma brilhante e aparentemente simples a angústia do ser humano e a sua perplexidade tanto para com o futuro como para com as forças da natureza, ou mesmo para com os outros (representados pelos dois vultos que se vêm de costas a afastarem-se no pontão). A paisagem funde-se na cabeça do indivíduo (semelhante a um crânio) que nos olha assustado e nos grita de mãos na cabeça.
Com Edvard Munch, a pintura deu um significativo salto na direcção da representação expressiva da realidade. Não interessa como é a realidade, interessa é o modo como o artista a vê. Munch gostava muito de fotografia, mas dizia: «A máquina fotográfica não pode competir com o pintor enquanto não puder ser usada no Céu ou no Inferno.»
A pintura moderna deve tudo à fotografia.