Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 20:24

Dom, 29/01/12

PORQUÊ JACQUES ATTALI (UM POUCO)

 

A avaliação que Zappa faz da indústria discográfica – um negócio para obter lucros – mostra que não tem ilusões com as loucuras e modas da imprensa rock. A sua única razão de existência é a manutenção de uma conjuntura que dê significado à compra de discos. Jacques Attali falou da necessidade que a indústria discográfica tem de gastar dinheiro a estimular a procura: assim o efeito da produção em massa (o seu termo é “repetição”) diminui precisamente o momento único pelo qual a música deve ser avaliada (aquilo que ele chama “ritual”).

 

Vista como bem de consumo e objecto de culto e fetiche, a música ilustra toda a nossa sociedade: des-ritualiza uma forma social, reprime uma atividade corporal, especializa a prática, vende-a como espetáculo, generaliza o consumo e depois certifica-se de que está armazenada até perder o significado.1

 

Apesar de Attali pretender fazer novidade disto, trata-se de teoria marxista. Attali regista o impacto do sistema de mercado na cultura. Walter Benjamin desenvolveu um pensamento parecido ao afirmar que a produção em massa destrói a “aura” do trabalho artístico. Contudo, ao contrário de Attali, Benjamin não diz que se “substitui” a Marx, uma pretensão que Attali pôs em ação mais tarde ao envolver-se com a catastrófica associação socialista de François Miterrand que atacava o padrão de vida da classe trabalhadora francesa – que levou à subida da Frente Nacional de Le Pen.

Seja como for, a fórmula de Attali é útil. Zappa dedica uma atenção especial a estes temas, fetichização de primeira classe (“Penguin in Bondage”), ritual vazio (“Bogus Pomp”), funções corporais (“Why Does It Hurt When I Pee?”), mundo do espetáculo (Thing-Fish), produção em massa (“A Little Green Rosetta”), perda de significado através da repetição (“Teen-age Wind”). Os “extremismos” grotescos de Zappa não são mais que uma resposta a um sistema de mercado que trata as pessoas como coisas, usando todo o vocabulário das raças e da escravatura que a experiência americana proporciona.

O uso do termo “espetáculo” é a chave da energia do conceito de Attali: ele é, evidentemente, um descendente de 1968 que não abdicou dos panfletos situacionistas. O espetáculo era tanto uma ferramenta analítica da Internacional Situacionista como o inimigo: a soma total da vida e dos meios de comunicação – TV, rádio, revistas, políticas, espetáculos de rock, religião – que vivem a vida por ti. Ao criticar o modo como os chamados “Subversivos” de sucesso (surrealistas, arquitetos socialistas, realizadores “marxistas”, pintores-rebeldes) meramente contribuíram para o espetáculo, gozando de recompensas de fama e dinheiro à medida que substituíam a criatividade diária das pessoas pelas suas proezas, a IS desenvolvia estratégias que se assemelhavam a políticas revolucionárias: apoiando greves não oficiais, perpetrando protestos contra a religião e a guerra que resultavam em ações e não em aplausos. Extraída de qualquer marxismo não estalinizado que encontrava (que incluía a versão de Herbert Marcuse e Henri Lefebvre de um Freud de esquerda), a IS desenvolveu uma retórica cultural que tem informado (e/ou antecipado) desde aí todos os desenvolvimentos artísticos. Contudo, deixar-se ser surpreendido e achar que os conceitos de Attali terão sido “respondidos” pela aparição do punk rock, é ingénuo – Jacques Attali e Malcolm McLaren usavam ambos ideias situacionistas, mas ao nível académico e do rock ‘n’ roll respectivamente (embora tais divisões – ou especializações – constituam traições ao saber situacionista). Os temas de Attali e do punk também são os de Zappa, porque lidam com o que o capitalismo faz às pessoas, o horror de seres humanos escravizados à acumulação de coisas: escravidão sexual, corpos, máquinas, fetichismo de bens de consumo, produto, morte, investimento em atrocidades libidinosas – aquilo que Attali teoriza como sacrifício: a violência reprimida ou o crime calado que garante o social.

(1) Jacques Attali, Noise, 1977.