A avaliação que Zappa faz da indústria discográfica – um negócio para obter lucros – mostra que não tem ilusões com as loucuras e modas da imprensa rock. A sua única razão de existência é a manutenção de uma conjuntura que dê significado à compra de discos. Jacques Attali falou da necessidade que a indústria discográfica tem de gastar dinheiro a estimular a procura: assim o efeito da produção em massa (o seu termo é “repetição”) diminui precisamente o momento único pelo qual a música deve ser avaliada (aquilo que ele chama “ritual”).
Vista como bem de consumo e objecto de culto e fetiche, a música ilustra toda a nossa sociedade: des-ritualiza uma forma social, reprime uma atividade corporal, especializa a prática, vende-a como espetáculo, generaliza o consumo e depois certifica-se de que está armazenada até perder o significado.1
Apesar de Attali pretender fazer novidade disto, trata-se de teoria marxista. Attali regista o impacto do sistema de mercado na cultura. Walter Benjamin desenvolveu um pensamento parecido ao afirmar que a produção em massa destrói a “aura” do trabalho artístico. Contudo, ao contrário de Attali, Benjamin não diz que se “substitui” a Marx, uma pretensão que Attali pôs em ação mais tarde ao envolver-se com a catastrófica associação socialista de François Miterrand que atacava o padrão de vida da classe trabalhadora francesa – que levou à subida da Frente Nacional de Le Pen.
Seja como for, a fórmula de Attali é útil. Zappa dedica uma atenção especial a estes temas, fetichização de primeira classe (“Penguin in Bondage”), ritual vazio (“Bogus Pomp”), funções corporais (“Why Does It Hurt When I Pee?”), mundo do espetáculo (Thing-Fish), produção em massa (“A Little Green Rosetta”), perda de significado através da repetição (“Teen-age Wind”). Os “extremismos” grotescos de Zappa não são mais que uma resposta a um sistema de mercado que trata as pessoas como coisas, usando todo o vocabulário das raças e da escravatura que a experiência americana proporciona.