Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 17:38

Sex, 25/05/07

Depois de ter visto o debate do programa "Prós e Contras" da RTP e ter visto a Maria do Céu Guerra intervir e ser cilindrada pelo argumento de que as pessoas já não querem teatro, querem é o Cream Fields e o Rock in Rio, fiquei sinceramente preocupado. Será que as pessoas acreditam realmente no que dizem ou estão a constatar um facto? Será o teatro irrelevante para a sociedade de um país? Será que o pouco interesse que o teatro suscita nas pessoas se deve à falta de qualidade dos profissionais do teatro portugueses ou devido à falta de curiosidade intelectual do público? Quanto a mim, as duas coisas são verdade.
Começando pelo princípio.
O teatro é uma actividade artística milenar. As transformações que o mundo sofreu em 100 anos reduziram o público potencial do teatro tradicional. O teatro também mudou, por isso. Mas mudou o suficiente? Mudou em quê?
Em Portugal, a estrutura produtiva de espectáculos de teatro continua a assentar em grande parte naquilo que as chamadas companhias convencionadas (Cornucópia, Comuna, Barraca, Almada, Aberto, AU) conseguem realizar. Para além desses gigantes do teatro português (companhias independentes que transportam dos anos 70, quase todas, toda a sua obsoleta estrutura produtiva) há várias pequenas companhias principalmente sediadas em Lisboa e no Porto que tentam sobreviver com as sobras que caem dos furos das programações dos diversos teatros. Tirando estas companhias convencionadas e os dois teatros nacionais, mais nenhum profissional do teatro pode assegurar que trabalhará durante todo o ano naquilo que sabe fazer.
Quando falo da estrutura produtiva, falo do dinheiro que é preciso para levantar um espectáculo de teatro e realizá-lo. Quando os apoios pontuais abrem os concursos de atribuição de subsídios é normal que os felizes contemplados consigam, digamos, 20.000 euros para fazer uma (1) peça de teatro. Ora, todos nós sabemos que as companhias convencionadas recebem perto de 500.000 euros para fazer três (3) ou quatro (4) peças de teatro por ano. Algo não bate certo.
Quando falo de estrutura produtiva falo daquilo que se podia fazer com o mesmo dinheiro e não se faz porque as estruturas destes teatros estão obsoletas e vivem em paradigmas assentes em modelos dos anos 70 (na melhor das hipóteses) e sabemos que o mundo e o país mudaram muito em 40 anos.
Quando trabalhei na Capital percebi que com o mesmo dinheiro podíamos fazer muito mais. Os AU recebiam um subsídio próximo deste valor mas com ele estreavam por ano cerca de 10, 12 produções de teatro entre outras iniciativas (tradução e edição de livros de teatro e da revista de teatro, leituras públicas, acolhimentos de outras companhias, etc). Esta capacidade de trabalho da companhia de teatro não foi reconhecida, nem pelos seus pares (muitas vezes por inveja e medo), nem pelo Estado (que, como se sabe, não quer saber). Quando o grupo saiu da Capital a experiência realizada morreu. A importância do que era feito não foi reconhecida.
Se o Estado não quer apoiar o teatro, porque não sabe como o fazer, ou não tem dinheiro nem política para divulgar as actividades teatrais (produção, escrita, encenação, representação), então que o diga. Pior que isto deve ser difícil. A quantidade de oportunidades desperdiçadas pelo Estado durante os últimos vinte anos para desenvolver as artes e a educação mostram bem a importância que dão ao desenvolvimento do país. Começando nos primeiros governos de Cavaco e acabando no Sócrates mais profundo, a política cultural é inexistente ou, no máximo, muito subestimada.
Mas, se pelo contrário acha importante o desenvolvimento intelectual do país, o desenvolvimento artístico e criativo das pessoas, então tem de pensar seriamente nas políticas que quer desenvolver, doutra maneira o teatro terá de se libertar da corrente aos seus pés - um grilhão chamado subsídio que impede um desenvolvimento autónomo, útil e vital do teatro.