Quando a ociosidade fazia o tempo demorar e quase que parar
e sempre acentuar a densa duração dos dias
e ao menos um amigo se tornava o adversário imprescindível
quando colher rosas nas sebes se tornara já um ritual
para as flores mortais mortais às vezes para quem as colhe
rosas vermelhas as mais olorosas as que mais depressa morrem
as que são um instante apenas ó rosa solitária e rubra que espero encontrar
no quarto onde eu morrer sozinho e donde sozinho sairei
sem servir de pretexto às mais sentidas manifestações de pesar
quando continuemos já nas casas fabricavam os primeiros licores de frutas
e as jovens concubinas eram simples e sensíveis insolentes mesmo
fiéis a uma moral própria nunca normativa
mas nascida dos actos ou então de decisões a longo prazo
quando em salões aveludados se teciam considerações sobre temas vários
como o da alma o da diversidade e quantidade das flores existentes
enquanto pelas bermas secas se formavam miosótis com um mínimo de cor
e a cúpula das áleas lembraria um dossel de folhas encarnadas
em castelos talvez de paredes ou muros devorados pela hera
onde os cães de infinitos olhos circundavam e sugavam as pessoas
com uns gestos domésticos não descritos nas palavras dos profetas
invariavelmente loquazes sempre que alguém falava de leões
onde as donzelas ingressavam em silêncios tão cingidos como certas árvores
nalsguns finais de tardes com o sol envolto já em nuvens
sobre a terra indecisa agressiva porém nos seus perfumes penetrantes
à hora em que magníficas mulheres como a de sacher-masoch põem pentes nos cabelos
e variegados tons ostentam em seus rostos
sob os ramos mais derramados dos chorões
mas prontas a romper em pranto aos simples canto
de uma ave talvez oculta numa umbrosa laranjeira de dezembro
quando flores inominadas de repente começavam a dilacerar-se
na íntima penumbra dos palácios populosos
e doentes doridos indefesos ante os dados dos sentidos
tinham toda a sensibilidade de quem tem a curto prazo a duração ameaçada
e sabiam que a tinham talvez devido às palavras cegas
de algum profeta industriado na indústria de viver
com os pés postos em arroz selvagem e a cabeça vizinha de sinceiros
quando algumas pessoas decidiam sacudir a solidão
e vagabundear por corações alheios sugando-lhes o sangue
embora nos antigos sacrifícios nunca ninguém bebesse o sangue
das vítimas não tivesse também de lhes beber as almas
quando nas casas a confiança da infância ainda não esmorecera
e havia gente interessada no ressurgimento da cartilha da emoção
e já se pressentia a delicada dinastia
das coisas transmitidas de uma geração pra outra geração
Ruy Belo, A Margem da Alegria, Editora Presença.