Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 14:37

Qua, 02/01/08

Pois foi, mudámos de cor. Estava a ficar farto do azul. Parecia-me demasiado solar e estival. Era como se o blogue estivesse a gozar comigo. Assim fica cinzento como as nuvens lá fora. Não há nada que enganar.
O ritmo de mudança das cores do blogue será o das estações, se o acharem demasiado soturno, digam, pode-se corrigir, se vos for indiferente, não digam nada, se vos fizer vomitar digam, eu arranjo daqueles sacos que há nos aviões. Se nada disto interessa, então esqueçam, o post serve apenas para dizer que estou vivo em 2008.
Na foto, o meu local de trabalho. É ali, naquele ecrã que escrevo o que escrevo agora. O piano inspira-me entre posts e o amplificador de baixo também. A cadeira custou-me os olhos da cara mas agora já não tenho dores de costas.
Este post é dedicado ao Olímpio Ferreira que nos deixou inesperadamente no dia 30 de Dezembro.
Bom ano a todos.


dan @ 13:11

Seg, 07/01/08

 

lixo

ela me achou largado numa esquina da cidade
manchado, amarfanhado, anestesiado
debaixo de um cartaz sorridente anunciando a escolha global
e cansada, e doída
de puxar a carreta cheia de papelão bem dobrado
de sacolas e caixotes ordenados
tudo tão bem-arrumado como a cozinha dela
e seu jardim de temperos
com os tornozelos inchados
as veias endurecidas de arrastar as solas dos pés
por séculos de terra não-reformada
e direitos indígenas aterrados
ela apoiou sua colheita dos excessos contra a sarjeta
despiu as rédeas
e curvando
com seus negros olhos questionadores
me abraçou junto ao seu peito trêmulo
junto às lágrimas salgadas
por danças ancestrais e ritmos rompidos
abrindo e enxaguando meus olhos inchados
ergueu-me até seu depósito periclitante
entre uma cadeira sem pernas e um violão sem cordas
chaves perdidas e descartados dicionários
para acompanhar sua caminhada pela noite
dos restaurantes metropolitanos aos morros da periferia
para o sul, para casa
até ser cuidadosamente lido
e colocado com calma
ao raiar do sol
dentro de uma comunidade de sonhos ainda coletivos
para ser transformado em um outro mundo

dan baron
danbaronmst@hotmail.com