Já
forneci algumas indicações sobre aquilo que acho que deve ser o papel do artista, e aquilo que a sociedade lhe deve pedir. Mas gostava de responder à velha pergunta “O que é a arte?” de modo mais definitivo. Contudo, só posso oferecer algumas sugestões inadequadas que me ocorreram quando escrevi
The Fool e mesmo estas considerações são mais perguntas do que respostas.
Hoje em dia a arte é muitas vezes desprezada por ser irrelevante na solução de problemas sociais. É óbvio que não acredito nisto. Se existe imaginação criativa nas pessoas, ela tem de ter um uso. É demasiado poderosa, e no passado foi demasiado eficiente, para ser um acidente da natureza humana.

Todo o nosso ser biológico funciona como meio de orientação e perpetuação da nossa espécie. Portanto as nossas paixões e emoções são um meio de o realizarmos e de obter conhecimento sobre o mundo (especialmente no sentido de conhecimento “hábil”, ou discernimento), do mesmo modo que o fazemos com os outros cinco sentidos. E o mesmo é verdade para as nossas imaginações criativas. (Seja a imaginação criativa uma capacidade isolada, seja um efeito do trabalho com outras capacidades, isso não interessa.)
O “buraco” na nossa natureza é preenchido com a compreensão e experiências que temos do mundo. Esta compreensão e experiências fazem de nós aquilo que somos, e aquilo que somos pode ser caótico ou racionalmente ordenado. Se é racionalmente ordenado é uma cultura (ou envolve-se na criação de uma cultura). A cultura não é apenas uma colagem de vários conhecimentos, porque no contexto da própria cultura, aquilo que sabemos é a base da própria acção. Um modo de reconhecer o mundo que envolve tanto as nossas emoções como a nossa razão. Uma metáfora simples (nem por sombras no sentido literal) é o “buraco” no estômago, as paredes do estômago são as emoções e a razão os sucos digestivos. Este estômago metafórico funciona com o que entra dentro dele e cria uma cultura sã – um conhecimento racional e emocionalmente evoluído do mundo. É a soma total do indivíduo ou o seu equilíbrio em relação com o mundo, a sociedade e as suas capacidades instintivas. Um conhecimento intelectual e hábil da realidade – onde o indivíduo construiu a realidade através da sua imaginação criativa, não a observou apenas ou suportou o seu impacto. É um processo de auto-criação. O resultado pode ser intelectual ou simples, mas não estúpido. A arte é o processo racional de criação de imagens, sons e dinâmicas – e é por isso que digo que a arte é a imaginação do real e não a invenção de uma fantasia. Se, por outro lado, o processo é passivo, por o indivíduo estar paralisado por negligência, medo ou qualquer outra coisa, então não é criada uma cultura.

A imaginação criativa não precisa ser sempre exprimida através da arte – há outras expressões – mas às vezes tem de ser exprimida em arte. O trabalho do artista é tornar o processo público, ao criar imagens públicas, literais ou figurativas, visualmente, sonoramente ou através do movimento, da condição humana – imagens públicas onde a espécie se reconhece e confirma a sua identidade. Há óbvios paralelismos de identificação da espécie em outros animais, mas a arte, ao ser associada à racionalidade e ao valor, vai mais longe que eles.
A arte é uma expressão directa da criação da natureza humana. Coloca o indivíduo no mundo e interpreta o mundo de acordo com as possibilidades e necessidades humanas. Exprime a realidade dentro dos limites do conhecimento numa determinada época e deste modo tem sido sempre racional, mesmo quando isto significava fazer a dança da chuva.
O artista deve ser tão atento e compreensivo quanto puder para desenvolver criativamente a natureza humana, e deve fazer isto sem desculpas ou medo e sem ser gratuitamente provocador. A complexidade está normalmente na perícia, mas a visão deve ser simples; adquire a sua força através da ausência de ilusão. A arte ajuda a criar significados e propósitos naquilo que de muitas maneiras é aparentemente um mundo irracional. Numa cultura, ou na luta para atingir uma cultura, um choro, uma lágrima, uma morte, tornam-se racionais. A arte só é bela no seu sentido mais lato porque pode conter morte e fealdade. Mas não se pode deixar render ao desespero ou à irracionalidade. A arte é o ser humano a reclamar uma relação racional com o mundo, especialmente quando aquilo que retrata é absurdo ou trágico. Ninguém consegue olhar com espírito curioso para um trabalho artístico e não se sentir mais livre, mesmo quando é confrontado com necessidades arrebatadoras ou quando faz julgamentos calculistas.
A última cena de
The Fool é passada num asilo. Nesta cena tentei mostrar que havia processos racionais que estavam ainda a sofrer alterações no aparentemente louco mundo do século dezanove na Europa. Os bairros-de-lata ingleses dessa altura eram campos de concentração em câmara lenta – nos bairros-de-lata a morte demora mais tempo a chegar. A arte sempre olhou para as atrocidades na época em que aconteceram. Aquilo que Adorno e Auden disseram sobre poesia e Auschwitz não abordou a questão. Só o teriam feito se Auschwitz tivesse sido o resumo de toda a história – e é claro que não foi.
Edward Bond in
The Fool &
We Come to the River.
Editora Methuen, Londres.
Tradução: minha.