Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 15:20

Dom, 05/10/08

SUBSERVIÊNCIA CANINA

Ao dramatizar a eficácia da dominação como meio de atingir o climax sexual, Zappa questiona o mito “axiomático” dos meios de comunicação de que a sexualidade habita os objectos sexuais – aos quais é ‘natural’ dever dar uma resposta lasciva. Desde o Marquês de Sade a Pat Califia que o reconhecimento das possibilidades eróticas do poder tem estado sempre associado ao desrespeito pela autoridade. Como símbolo de uma subserviência ansiada o caniche possui uma história distinta. Desde o século dezoito que tem sido frequentemente usado em política (no final dos anos 70, Shirley Williams foi rotulada, pela esquerda, com dísticos do tipo ‘SDP – O Caniche da NATO’). Henry James, sempre atento às metáforas carregadas de sexualidade, escreveu: ‘Meu Deus, como ela se vai zangar com ele, como ela o vai “espremer”, em tal caso! O pior de tudo vai ser que – e assim era a sua natureza amável e pacífica – ele lhe vai obedecer como se fosse o caniche de um domador.’
O uso de caniches como animais de espectáculo deriva, de facto, da sua anormal inteligência. Os caniches foram introduzidos em Inglaterra provenientes da Alemanha como cães de caça. O nome tem origem na palavra alemã para lago – pudel – porque eram usados como recolectores de patos abatidos por cima da água (os caniches normais têm juba, originalmente para os ajudarem a nadar). Contudo, a descoberta de que o seu pêlo parecido à lã podia ser usado para proporcionar efeitos esculturais remeteu-os desde muito cedo a um uso ornamental. Mimados e obedientes, tornaram-se símbolo da natureza confinada, disciplinada e domesticada. Quando Gary McFarland quis invocar a morte espiritual em America the Beautiful, o seu álbum que protestava contra a espoliação dos campos, chamou ao terceiro movimento ‘Suburbia – Dois Caniches e Um Jesus de Plástico’. Jeff Koons instalou um caniche numa madeira policromada ao lado de uma fotografia de uma penetração que enfatizava a proximidade do ânus com a vagina, essa imagem era completamente acertada, se não surpreendentemente original.
Em ‘Camarillo Brillo’ eles fizeram-no ‘até ficarem inconchient's – sexo usado como crítica à racionalidade. Procedimento romântico normal a que se ofereceram novas ratoeiras. O romantismo – movimento que procurou limitar o ponto de vista burguês do mundo ao dar um tratamento secular a assuntos até aí considerados sagrados – estava disposto a negar a centralidade da razão no que dizia respeito à criatividade. Mais uma vez, aparece um caniche. Samuel Taylor Coleridge argumentou em The Friend que a ‘Compreensão e a Experiência* podem existir sem Razão.’ A nota de roda-pé indicada pelo asterisco diz: ‘Disto ninguém se pode sentir compelido a duvidar, quem viu um caniche...’
Talvez Dora seja simplesmente o outro orifício, ‘o que ela precisava / era de disciplina’ referindo-se à ligação entre analidade e masoquismo: dar atenção a Dora estimula Dinah.