É muito fácil fazer perguntas demagógicas, ser arrogante e desconfiado, interromper os pensamentos dos outros. O difícil é construir um pensamento responsável e coerente, saber o que são as prioridades e o que significa ser leal, difícil é afrontar os poderes estabelecidos em Portugal-a-Velha e tentar reformar a saúde, a educação, combater a falta de produtividade e a ignorância.
Foi isto que vi na entrevista ao primeiro-ministro hoje. De um lado dois jornalistas empenhados em fazer perguntas de oposição, claramente, aliás, nem se coibiram de o dizer, que fraca figura fizeram e que mau exemplo deram a toda a classe de jornalistas, e do outro um primeiro-ministro confiante no seu trabalho e nas suas ideias mas ainda hesitante quanto à sua continuação no governo do país.
Só digo esta, que é bem bombástica, eu não vou votar no PS, seja como for, mas se o Sócrates não se candidatar às próximas eleições legislativas, vamos ter muitas saudades deste governo...
um só que fosse e já valia a pena.
Aqui,no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto,esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste."
Miguel Torga: "Camara Ardente", 1962