Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 02:23

Dom, 14/10/07

Há muito tempo que não ia ao teatro. Hoje fui ver A Minha Mulher de José Maria Vieira Mendes no Teatro Nacional D. Maria II. Encenação de Solveig Nordlund, com Dinarte Branco, João Lagarto, Joana Bárcia, José Airosa e Isabel Muñoz Cardoso. Sala cheia. Só para ver um teatro cheio já valeu a pena sair de casa. Detesto ir ao teatro e encontrar a sala vazia. tenho a impressão que agora já não é tão usual como antigamente.
A peça ganhou o Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva, iniciativa do Instituto Camões e da FUNARTE (Fundação Nacional da Arte - Brasil) e contou com a parceria da Direcção-Geral das Artes. Quando peguei no livrinho da peça vi que numa epígrafe se podia ler qualquer coisa como "esta peça foi escrita depois de ler a peça Brincando com o Fogo de August Strindberg". O quê?
A minha estupefacção era abissal. Mas as peças que vão a concurso então não devem ser originais? Consultei o regulamento do concurso mais uma vez e confirmei no ponto 2.2, especifica-se que não se aceitam adaptações de obras de outro autor. Como é possível que uma peça de teatro como esta, com inegáveis qualidades de escrita, o facto não está em causa, possa vencer um concurso internacional? É claro que o autor não diz que adaptou (óbvio) mas o facto de fazer referência à obra, só por si devia ser razão para a excluir do lote de peças a concurso. Como é que isto é possível? Como é possível que o júri do concurso tenha feito tal asneira? Quem são as pessoas do júri?
Decidi afastar estes pensamentos da cabeça e fui ver a peça. O elenco era convidativo e o texto (constatei) está realmente bem escrito, mas a estrutura das personagens, os seus amores cruzados, o ambiente bucólico de uma burguesia apodrecida e estagnada são strindberguianos. Não preciso de conhecer a peça em questão. Conheço o teatro de Strindberg. Conheço o naturalismo do princípio do século XX. Estava confirmada a minha teoria de adaptação. Se isto não é uma adaptação, então o que é?
Mas adiante, a construção da peça, assente em repetições de frases que vão mudando de personagem, ou não, mostra-nos de maneira bastante pungente o lado circular e estagnado da acção narrativa. Esta característica também não é inédita no autor, basta lembrarmo-nos de Se o Mundo Não Fosse Assim, ou até no seu primeiro trabalho, o monólogo sobre as obras de Kafka Dois Homens onde a repetição era característica da própria personagem estigmatizada pela culpa.
A transposição de Vieira Mendes para a realidade portuguesa do pós 25 Abril é perspicaz e o trabalho realizado sobre a linguagem divertido e bem ritmado (características dos anteriores trabalhos de José Maria Vieira Mendes). Não falta também uma poesia da letargia e inacção muito bem representadas por José Airosa que conferem à personagem uma dimensão e profundidade raras e que têm raiz em 1900.
João Lagarto - num pai desencantado, mas activo - é o motor do espectáculo e é por ele que passa grande parte da adaptação do autor. As suas falas estão cheias do portuguesismo que todos identificamos e às vezes criticamos, mas que não podemos deixar de compreender e até amar. É através das conversas do pai que vislumbramos aquilo que pode ser uma nova voz do teatro português. A comicidade é contagiante, tirando partido da desconstrução de provérbios e frases feitas, muito por culpa do vibrante desempenho do actor.
Dinarte Branco tem o papel mais difícil do visitante que vem passar férias àquela casa onde a falta de água e a invasão de mosquitos criam um universo claustrofóbico a que no final não conseguem resistir as personagens do filho e da nora. Oscila entre a paixão pela nora e a amizade ao filho. No final junta-se à revolução que está para chegar e é comandada pelo pai.
Tudo somado, vale a pena deslocarmo-nos ao Nacional para assistir a um dos dramaturgos portugueses mais interessantes. Pena é que seja na sala estúdio e que na sala principal continuem a passar peças de Shakespeare com encenações antigas de artistas estrangeiros. Será que não há encenadores portugueses importantes que não tenham companhias de teatro a eles associadas que possam fazer peças contemporâneas no palco principal?
Eu sei que o teatro esteve fechado durante muito tempo e que agora há uma programação permanente, devemos congratular-nos com isso, mas será que basta? Será que basta eleger um autor português que escreve uma adaptação de uma obra sueca? Não devia ser mais interessante divulgar as obras de mais autores e dar-lhes maior destaque? Estaremos sempre condenados a esta espartana condição?