Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 16:46

Sab, 08/12/07

HOT RATS

O álbum a solo de Zappa era praticamente uma colaboração com Ian Underwood. Gravado inteiramente na Costa Oeste entre Agosto e Setembro de 1969 (em três estúdios: o Witney, o TTG e o Sunset, onde Art Tripp tinha regravado percussão para o álbum Uncle Meat e os álbuns de Wild Man Fischer), o som volumoso e em tempo real provinha de um universo bem diferente das surpresas dadaístas de Uncle Meat. O ‘organus maximus’ criava um ímpeto polido, reminiscente do swing jazz de organistas como Jimmy McGriff e Shirley Scott. A grande produção profissional deu às melodias excêntricas de Zappa um novo brilho e o disco ganhou um interesse muito grande. Enquanto que Uncle Meat agradava aos músicos europeus de avant-rock, Hot Rats mostrava aos músicos de estúdio e jazz como a excitação do rock pode ser usada para mostrar classe. Sem as excêntricas melodias de Zappa mas com o ouvido refinado para combinações instrumentais novas, tal ‘fusão’ tornou-se conhecida por rock progressivo (acabou por ser a versão académica do jazz, a banda sonora dos MOR para a televisão e para o cinema e para qualquer pessoa que frequentasse a Berklee School). Tom Scott, cujo trabalho oblíquo de estúdio e de filmes quase definiu o som comercial dos anos 70, ficou evidentemente impressionado com Hot Rats. Nas notas de roda pé de Rural Still Life afirma que ‘os Mothers são o meu grupo favorito de rock ‘n’ roll’ e fala de uma canção: ‘Freak In’. Usa o mesmo baterista – John Guerin – que Zappa usou em Hot Rats e o saxofone possui uma rudeza de ‘jazz de banda desenhada’ parecida com a de Ian Underwood. Em Tom Cat ainda fez melhor ao contratar o baixista Max Bennett e John Guerin (e o mesmo artista gráfico – David McMacken – que Zappa solicitara para 200 Motels e Overnite Sensation). Quando as pessoas dizem que Hot Rats soa a músicas de televisão estão provavelmente a ouvir o eco de algo que, via Tom Scott, foi tocado por Zappa. Claro, Zappa definia algo que já andava no ar. Roger Kellaway (que, como George Duke, passou algum tempo com a seminal bigband de Don Ellis) gravou algum jazz-rock-proto-Hot Rats em 1967, em Spirit Feel (produzido por Richard Bock) com um colectivo de músicos de estúdio da Costa Oeste chamado Spontaneous Combustion e produziu Come and Stick Your Head In em 1968. Como diz o percussionista Gary Coleman – que participou num concerto de Zappa no Shrine Auditorium de LA:
Em geral, a ideia era combinar jazz e rock, mas em vez de aparecerem um a seguir ao outro em justaposição, era tentar juntar ambos por camadas. Talvez haja influência de Charles Ives ou de Zappa e os Mothers, mas a ideia básica era o efeito de colagem. Quando fizémos isto em 1968, ainda não ouvira o novo grupo do Frank e fiquei muito surpreendido quando ouvi, porque é muito parecido.
Nestas primeiras experiências de jazz-rock, a dureza do rock, embora atractiva, tende a parecer uma espécie de êxtase áspero – Hot Rats consegue criar uma sensação de movimento. A música de Zappa não vinha de nenhum sítio: resolvia problemas musicais colocados por ‘homens com classe e cabelo comprido’.
Da mesma maneira que a lenda de comer merda em palco, a ideia de que Hot Rats é o único álbum ‘bom’ de Zappa é um dos poucos ‘factos’ sobre Zappa que penetraram a consciência rock, especialmente em Inglaterra (como Zappa afirma no seu livro). Lester Bangs, cuja insistência em virtudes ‘reais do rock’ se expressou muitas vezes com hostilidade em relação a Zappa, louvou a falta de ‘auto-indulgência’ na Rolling Stone. À parte do som profissional, impulsivo, a atracção concentra-se na falta de interrupções: não há musique concrète, não há caos, não há Suzy Creamcheese, não há absurdo. Embora o nome não aparecesse, Johnny Otis esteve nas sessões, exortando e tocando pandeireta e pode-se ouvir uma cadência R&B colada à batida. ‘Peaches En Regalia’ mostra a pomposidade jocosa que mais tarde influenciou melodias como ‘Penis Dimension’ e ‘Regyptian Strut’. Há muitas regravações bem feitas – o lançamento em CD restituiu alguns enriquecimentos que o vinil não suportava – mas o efeito geral tem alguma da qualidade não costurada do cool jazz da Costa Oeste.
‘Willie the Pimp’ é baseada numa clássica malha de blues, embora necessite de uma execução firme (como o provou Aynsley Dunbar na sua horrível versão). Zappa regravou percussões que chocalham em fundo, mas já não é o trabalho dadaísta de Art Tripp; contribuem para a batida. Max Bennett – veterano da orquestra de Stan Kenton – toca baixo de modo espontâneo (Bennett toca em todas as faixas excepto ‘Peaches’, nesta faixa é o filho de Johnny Otis, Shuggie). O solo de guitarra de Zappa – fazendo máximo uso do pedal wah-wah – é o seu melhor até aí. Pode-se ouvi-lo a fazer erros e a incorporar as erróneas direcções no seu solo: material à flor da pele. ‘Son of Mr. Green Genes’, versão de ‘Mr. Green Genes’ de Uncle Meat (na linha de filmes de monstros como Son of Godzilla), acelera a malha e parte a loiça. ‘Little Umbrellas’ possui um delicioso baixo acústico tocado por Max Bennett e uma partitura misteriosa, complexa, que esconde no swing todo o tipo de nancarrowismos propositados. Aqueles já habituados à maneira como Zappa escreve para vozes ouvem uma inteligência impertinente nas texturas contrastantes dadas aos sucessivos chorus.
'The Guambo Variations’ é baseada num riff de baixo intemporal, com uma figura rítmica pesada, sustentada pelos pratos de Paul Humphrey. Zappa expõe os diferentes instrumentos ao fazê-los descansar em momentos chave (algo que a preguiçosa sequência de solos do jazz raramente oferece). Os sons irritantes, estrangulados, "cheios mas funky" do saxofone tenor de Ian Underwood são o ponto alto, plenos daquele som de "aspirador industrial mutante num acapamento" usado mais tarde em Chunga’s Revenge (no interior do disco, Beefheart segura num modelo para consumo doméstico). O solo de Sugarcane Harris mostra quão sofisticado este músico de R&B é, o tom espesso, rangedor é equivalente às vagas de som de John Coltrane. O termo jazzista ‘partir a loiça’ – destinado a descrever a construção de um ritmo acelerado – podia ser usado para descrever os clímaxes de Hot Rats: O violino de Harris e o orgão de Underwood soam de facto como panelas que borbulham e panelas de pressão que assobiam.
‘It Must Be a Camel’ é mais uma das melodias de Zappa em que a harmonia flutuante nos transporta para a órbita de John Carisi e do cool jazz. A participação de Jean-Luc Ponty a meio (demasiado curta para ser rotulada de solo), acompanhada por alguma da complexa percussão varèsiana de Zappa é instantaneamente reconhecível pelo som, como se as notas do violino se dissolvessem e corressem por baixo da música: um aperitivo para colaborações futuras.
Hot Rats está cheio de evidente virtuosismo e solos por clímaxes: os trabalhos em ‘Willie the Pimp’ e ‘The Guambo Variations’ podem não surpreender o ouvinte ao fim de vinte anos, como Uncle Meat, mas para aqueles desabituados às tendências da arte moderna para formas mais herméticas, é um deleite. Tudo é tocado e gravado no máximo da energia: esta falta de reticências e negação tornou-o popular (Money, tem de ser lembrado, criou apetite aos ouvintes, com promessas de rock pesado, apenas para os gozar). Há humor na maneira arcaica como as melodias e os arranjos introduzem estranhos espasmos na música, mas a batida não pára. Lançado em 1970, chegou ao número 99 da tabela americana de vendas. Zappa anunciou-o como ‘outro flop’. O álbum foi dedicado a Dweezil, nascido no final de 1969.


Xavier @ 22:29

Sab, 08/12/07

 

Hot Rats! Não foi o primeiro trabalho de Zappa que ouvi, mas foi um dos que entendi melhor, na altura. Não precisei de "esforçar-me" para gostar da música, agradou-me logo. Pensei até que Zappa tinha dado um passo em frente por ter acabado com os Mothers originais (excepto Ian Underwood, claro). Um Álbum essencialmente instrumental, com a guitarra de Zappa e sax de Ian em tom de Jazz. Um dos meus favoritos de sempre.

Pedro Marques @ 00:09

Dom, 09/12/07

 

Xavier!
Finalmente o desaparecido aparece. Que honra. Não me lembro da primeira vez que ouvi o disco, mas soube desde a primeira música que era um seria um clássico.
Abraços.

CresceNet @ 11:04

Seg, 10/12/07

 

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Coke @ 14:31

Sab, 15/12/07

 

Galera... eis aqui o meu disco predileto, não apenas do Zappa mas considero Hot Rats meu disco preferido dentre todos os quase 2.000 títulos que estão na estante.

Peaches até foi executada em meu casamento... hehehehe

abraços brasilerios
Coke