HOT RATSO álbum a solo de Zappa era praticamente uma colaboração com Ian Underwood. Gravado inteiramente na Costa Oeste entre Agosto e Setembro de 1969 (em três estúdios: o Witney, o TTG e o Sunset, onde Art Tripp tinha regravado percussão para o álbum
Uncle Meat e os álbuns de Wild Man Fischer), o som volumoso e em tempo real provinha de um universo bem diferente das surpresas dadaístas de
Uncle Meat. O ‘organus maximus’ criava um ímpeto polido, reminiscente do swing jazz de organistas como Jimmy McGriff e Shirley Scott. A grande produção profissional deu às melodias excêntricas de Zappa um novo brilho e o disco ganhou um interesse muito grande. Enquanto que
Uncle Meat agradava aos músicos europeus de avant-rock,
Hot Rats mostrava aos músicos de estúdio e jazz como a excitação do rock pode ser usada para mostrar classe. Sem as excêntricas melodias de Zappa mas com o ouvido refinado para combinações instrumentais novas, tal ‘fusão’ tornou-se conhecida por rock progressivo (acabou por ser a versão académica do jazz, a banda sonora dos MOR para a televisão e para o cinema e para qualquer pessoa que frequentasse a Berklee School). Tom Scott, cujo trabalho oblíquo de estúdio e de filmes quase definiu o som comercial dos anos 70, ficou evidentemente impressionado com
Hot Rats. Nas notas de roda pé de
Rural Still Life afirma que ‘os Mothers são o meu grupo favorito de rock ‘n’ roll’ e fala de uma canção: ‘Freak In’. Usa o mesmo baterista – John Guerin – que Zappa usou em
Hot Rats e o saxofone possui uma rudeza de ‘jazz de banda desenhada’ parecida com a de Ian Underwood.

Em
Tom Cat ainda fez melhor ao contratar o baixista Max Bennett e John Guerin (e o mesmo artista gráfico – David McMacken – que Zappa solicitara para
200 Motels e
Overnite Sensation). Quando as pessoas dizem que
Hot Rats soa a músicas de televisão estão provavelmente a ouvir o eco de algo que, via Tom Scott, foi tocado por Zappa. Claro, Zappa definia algo que já andava no ar. Roger Kellaway (que, como George Duke, passou algum tempo com a seminal
bigband de Don Ellis) gravou algum jazz-rock-proto-
Hot Rats em 1967, em
Spirit Feel (produzido por Richard Bock) com um colectivo de músicos de estúdio da Costa Oeste chamado Spontaneous Combustion e produziu
Come and Stick Your Head In em 1968. Como diz o percussionista Gary Coleman – que participou num concerto de Zappa no Shrine Auditorium de LA:
Em geral, a ideia era combinar jazz e rock, mas em vez de aparecerem um a seguir ao outro em justaposição, era tentar juntar ambos por camadas. Talvez haja influência de Charles Ives ou de Zappa e os Mothers, mas a ideia básica era o efeito de colagem. Quando fizémos isto em 1968, ainda não ouvira o novo grupo do Frank e fiquei muito surpreendido quando ouvi, porque é muito parecido.
Nestas primeiras experiências de jazz-rock, a dureza do rock, embora atractiva, tende a parecer uma espécie de êxtase áspero –
Hot Rats consegue criar uma sensação de movimento. A música de Zappa não vinha de nenhum sítio: resolvia problemas musicais colocados por ‘homens com classe e cabelo comprido’.
Da mesma maneira que a lenda de comer merda em palco, a ideia de que
Hot Rats é o único álbum ‘bom’ de Zappa é um dos poucos ‘factos’ sobre Zappa que penetraram a consciência rock, especialmente em Inglaterra (como Zappa afirma no seu livro). Lester Bangs, cuja insistência em virtudes ‘reais do rock’ se expressou muitas vezes com hostilidade em relação a Zappa, louvou a falta de ‘auto-indulgência’ na
Rolling Stone.

À parte do som profissional, impulsivo, a atracção concentra-se na falta de interrupções: não há
musique concrète, não há caos, não há Suzy Creamcheese, não há absurdo. Embora o nome não aparecesse, Johnny Otis esteve nas sessões, exortando e tocando pandeireta e pode-se ouvir uma cadência R&B colada à batida. ‘Peaches En Regalia’ mostra a pomposidade jocosa que mais tarde influenciou melodias como ‘Penis Dimension’ e ‘Regyptian Strut’. Há muitas regravações bem feitas – o lançamento em CD restituiu alguns enriquecimentos que o vinil não suportava – mas o efeito geral tem alguma da qualidade não costurada do cool jazz da Costa Oeste.
‘Willie the Pimp’ é baseada numa clássica malha de blues, embora necessite de uma execução firme (como o provou Aynsley Dunbar na sua horrível versão). Zappa regravou percussões que chocalham em fundo, mas já não é o trabalho dadaísta de Art Tripp; contribuem para a batida. Max Bennett – veterano da orquestra de Stan Kenton – toca baixo de modo espontâneo (Bennett toca em todas as faixas excepto ‘Peaches’, nesta faixa é o filho de Johnny Otis, Shuggie). O solo de guitarra de Zappa – fazendo máximo uso do pedal wah-wah – é o seu melhor até aí. Pode-se ouvi-lo a fazer erros e a incorporar as erróneas direcções no seu solo: material à flor da pele. ‘Son of Mr. Green Genes’, versão de ‘Mr. Green Genes’ de
Uncle Meat (na linha de filmes de monstros como
Son of Godzilla), acelera a malha e parte a loiça. ‘Little Umbrellas’ possui um delicioso baixo acústico tocado por Max Bennett e uma partitura misteriosa, complexa, que esconde no swing todo o tipo de nancarrowismos propositados. Aqueles já habituados à maneira como Zappa escreve para vozes ouvem uma inteligência impertinente nas texturas contrastantes dadas aos sucessivos chorus.
'The Guambo Variations’ é baseada num
riff de baixo intemporal, com uma figura rítmica pesada, sustentada pelos pratos de Paul Humphrey. Zappa expõe os diferentes instrumentos ao fazê-los descansar em momentos chave (algo que a preguiçosa sequência de solos do jazz raramente oferece). Os sons irritantes, estrangulados, "cheios mas funky" do saxofone tenor de Ian Underwood são o ponto alto, plenos daquele som de "aspirador industrial mutante num acapamento" usado mais tarde em
Chunga’s Revenge (no interior do disco, Beefheart segura num modelo para consumo doméstico).

O solo de Sugarcane Harris mostra quão sofisticado este músico de R&B é, o tom espesso, rangedor é equivalente às vagas de som de John Coltrane. O termo jazzista ‘partir a loiça’ – destinado a descrever a construção de um ritmo acelerado – podia ser usado para descrever os clímaxes de
Hot Rats: O violino de Harris e o orgão de Underwood soam de facto como panelas que borbulham e panelas de pressão que assobiam.
‘It Must Be a Camel’ é mais uma das melodias de Zappa em que a harmonia flutuante nos transporta para a órbita de John Carisi e do cool jazz. A participação de Jean-Luc Ponty a meio (demasiado curta para ser rotulada de solo), acompanhada por alguma da complexa percussão varèsiana de Zappa é instantaneamente reconhecível pelo som, como se as notas do violino se dissolvessem e corressem por baixo da música: um aperitivo para colaborações futuras.
Hot Rats está cheio de evidente virtuosismo e solos por clímaxes: os trabalhos em ‘Willie the Pimp’ e ‘The Guambo Variations’ podem não surpreender o ouvinte ao fim de vinte anos, como
Uncle Meat, mas para aqueles desabituados às tendências da arte moderna para formas mais herméticas, é um deleite. Tudo é tocado e gravado no máximo da energia: esta falta de reticências e negação tornou-o popular (
Money, tem de ser lembrado, criou apetite aos ouvintes, com promessas de rock pesado, apenas para os gozar). Há humor na maneira arcaica como as melodias e os arranjos introduzem estranhos espasmos na música, mas a batida não pára. Lançado em 1970, chegou ao número 99 da tabela americana de vendas. Zappa anunciou-o como ‘outro flop’. O álbum foi dedicado a Dweezil, nascido no final de 1969.