Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 18:09

Seg, 07/07/08

FZ E O PUNK

A estonteante banalidade de Overnite Sensation, a perspectiva transviada do ‘sexo em duas dimensões’, é uma atrocidade cometida à contracultura — vários anos antes do punk. Vale a pena demorarmo-nos no desgosto dos adeptos do arte rock em relação àquilo que lhes parecia uma cedência de Zappa. Confundindo arte e política, os valores da indústria caseira do movimento Rock In Opposition acabam em más versões de ambas as áreas: dando-nos arte que ‘devíamos’ gostar por causa da sua ideologia. Apesar dos rumores dos ‘hippies que se recusam a morrer’, a fase ‘rock alternativo’ de Zappa terminou porque deixara de haver possibilidade de a viver no mundo real: os consumidores falharam (mais uma vez) a revolução. Aquilo que restava a alguém com acesso à tecnologia necessária era produzir aquilo que Theodor Adorno chamava prismas: cristalizações de teias inconscientes que criavam valores e comunicavam, aquilo a que se deve chamar arte. Estamos habituados a que a vanguarda possua essa informação. A façanha de Zappa foi pintar isso com a vibrante desordem do comercialismo.
Rejeitado pelos hippies, Zappa também não encontrou apoio nos punks. Se analisarmos os escritos de Charles Shaar Murray das revistas Oz e Creem até à New Musical Express, é evidente para que os lê que não eram apenas os fãs do arte rock que não gostavam da mudança da Bizarre para a Discreet. Murray é evidentemente um fã dos Mothers — os seus escritos estão carregados de citações dos discos dos Mothers of Invention. A palavra ‘punk’, que utilizou deliberadamente desde 1971, vem na verdade de Zappa: ‘Hey Punk’ de We’re Only in It for the Money que parodiava ‘Hey Joe’ dos Leaves, canção imortalizada por Hendrix.
Tal como os Henry Cow, Murray separou-se de Zappa em Overnite Sensation — não porque Zappa tivesse abandonado a abstracção musical e se tivesse dedicado ao rock ‘n’ roll, mas porque já não era credível nas ruas. Aborrecido com a festa que a Reprise organizou para celebrar a entrada de Apostrophe (‘) nos ‘dez mais’ — um esbanjador evento que custou £30,000 – esbanjador de acordo com os orçamentos de relações públicas da indústria discográfica dos anos 70 —, Murray disse que Zappa se tinha vendido, que a sua música era apenas ‘lixo chique’. Os mesmos sentimentos atingiram um climax feliz durante a explosão punk patrocinada pelo New Musical Express, mas não conseguiram explicar como é que Zappa, em particular, conseguia lançar álbuns que surpreendiam e perturbavam de igual modo.