O aspecto mais característico dos Mothers talvez seja a continuidade conceptual da macroestrutura produtiva do grupo. Há, e sempre houve, um controlo consciente de todos os elementos temáticos e estruturais que percorrem cada um dos álbuns, espectáculos ao vivo ou entrevistas.
Já ouviram falar do projecto Earth Works? Imaginem as décadas e as pilhas de coisas acumuladas e sujeitas a modificações paisagísticas extensivas conceptuais e de longo alcance. Casas, Escritórios. As pessoas vivem lá e trabalham lá. Imaginem que também podiam lá viver e trabalhar lá e nem sequer saberem. Consigam imaginá-lo ou não, aqui é que está a questão.
Os céus desfilam perante nós: a visão apocalíptica da realidade como artifício. Que horrível piedade medieval se tem tornado a experiência normal, desde a revolução industrial, vivemos realmente num ambiente moldado por humanos: até os trabalhadores da terra (especialmente os trabalhadores da terra, de facto) são afectados pelo mercado mundial de arroz. A mão que surge do céu e se vê na janela onde aparece o Holiday Inn, na capa de Overnite Sensation, promove, como em Time Out of Joint de Philip K. Dick, uma visão da realidade como cenário de teatro. A mão conserta ou apaga um candeeiro de rua: vivemos numa paisagem em miniatura e todas as nuvens são apenas zeppelins, o calor do sol apenas uma construção engenhosa de espelhos e lentes de aumentar. A proximidade de Hollywood e da Disneylândia – com as suas réplicas de cidades, a reprodução física da realidade que persegue uma ilusão – influencia fortemente tanto Dick como Zappa.A ilusão de liberdade continuará enquanto for lucrativo continuar a visão. Quando a ilusão se tornar demasiado cara de manter eles simplesmente deitarão o cenário abaixo, arrancarão as cortinas, afastarão as mesas e as cadeiras do caminho, e tu verás a parede de tijolos na parede de fundo do teatro.Quando Zappa cantou ‘I’m the Slime’ em Overnite Sensation foi vilipendiado por estar apenas a satirizar o ‘alvo fácil’ da televisão, só que era mais que isso, o próprio disco era a porcaria (slime), e não uma qualquer alternativa.
Aquilo que tocamos é mais do que aquilo que tocamos. Fazemos parte do projecto/objecto. O projecto/objecto (talvez prefiram evento/organismo) é composto por qualquer meio visual à disposição, pela consciência de todos os participantes (incluindo o público), todas as diferenças perceptivas, Deus (como energia), a Grande Nota (como matéria básica de construção universal), e outras coisas. Fazemos uma arte especial num meio ambiente hostil a sonhadores.
Aquilo que estou a tentar descrever é o tipo de atenção dada a cada letra, melodia, arranjo, improvisação, a sequência destes elementos no disco, a capa, que é uma extensão do material musical, a escolha do que é gravado, lançado, e/ou apresentado num concerto, a continuidade ou contraste de matérias que aparecem de álbum para álbum etc, etc, etc... todos estes detalhes fazem parte da Grande Estrutura ou do Corpo Principal de Trabalho. Os detalhes mais pequenos contêm não apenas os elementos do Corpo Principal de Trabalho mas, por causa da sua cronologia na execução, dão-lhes ‘forma’ num sentido abstracto.
Os temas e imagens que se ligam e articulam a esta estrutura são deliberadamente escolhidos dentre detritos periféricos de símbolos e clichés culturais. Zappa descreveu o riff de ‘Tryin’ to Grow a Chin’ como ‘arquetipicamente estúpido’ e tem falado de como as suas canções são construídas com ícones culturais: ‘Contêm informação codificada não apenas sobre o modo de vida americano, contêm informação codificada sobre processos psicológicos que também são comuns aqui na Europa.’ Não se podem ver as canções de Zappa como “auto-expressões”; elas concatenam ligações verbais e musicais e constroem monstruosidades merzbau. Quando se encontram estas ligações no mundo ‘real’ elas possuem uma aura esquisita: Zappa demonstra com sucesso como a cultura que nos rodeia é artificial, um gesto surreal. 
A sério que penso ir, para um local perto, mas que podia ser tão remoto como a Patagónia. Obviamente, não direi mais nada sobre o assunto.
Quanto ao tópico, reparei de facto na irritante "erudição" de Watson. E já não é a 1ª vez. "Time Out of Joint" de Philip K. Dick, por exemplo. Se, por acaso, não conhecesse bem a Obra deste escritor (um dos meus favoritos de FC) não compreenderia do mesmo modo o texto. Quando o autor se refere a certo tipo de "visões esquizofrénicas", pensei logo em "Valis" de P.K.Dick. A acção de "Valis" decorre num ambiente de drogados, e nunca sabemos quando os acontecimentos são "trips" ou reais, quando os diálogos são imaginários ou não, pois o autor não separa, de propósito, os momentos em que os personagens estão sob o efeito de droga ou têm um vislumbre real do mundo quando o efeito desvanece, mas nunca desaparece completamente. Torna-se tudo surreal, o inconsciente sai e mostra-se, monstruoso!"A ilusão de liberdade continuará enquanto for lucrativo continuar a visão...." - Como escreve Watson. Vê-se onde foi buscar o estilo.
Definitivamente, este livro não é fácil de digerir.
Mas não te preocupes, embora invisível estou sempre presente para as Dialécticas e não só, como prometi.
Um abraço e parabéns pelo Gengis.