Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 20:50

Qua, 23/07/08

Continuamos com As Dialécticas Negativas das Habilidades do Caniche, um livro de Ben Watson sobre a magnânima obra do compositor e músico Frank Zappa. Este é um dos meus capítulos preferidos ainda que seja o mais difícil de traduzir. A partir daqui o autor recorre a tantos jogos de palavras que, na sua maioria, são impossíveis de repetir em português. Por isso preparem-se para a confusão. Espero que ainda estejam por aí. Já foste de férias Xavier?



A MACROESTRUTURA PRODUTIVA

A reputação diz que Zappa comunicou ao executivo de vendas da Warner Brothers, através de uma nota que a International Times publicou em 1971, as seguintes afirmações:
O aspecto mais característico dos Mothers talvez seja a continuidade conceptual da macroestrutura produtiva do grupo. Há, e sempre houve, um controlo consciente de todos os elementos temáticos e estruturais que percorrem cada um dos álbuns, espectáculos ao vivo ou entrevistas.
Já ouviram falar do projecto Earth Works? Imaginem as décadas e as pilhas de coisas acumuladas e sujeitas a modificações paisagísticas extensivas conceptuais e de longo alcance. Casas, Escritórios. As pessoas vivem lá e trabalham lá. Imaginem que também podiam lá viver e trabalhar lá e nem sequer saberem. Consigam imaginá-lo ou não, aqui é que está a questão.
Os céus desfilam perante nós: a visão apocalíptica da realidade como artifício. Que horrível piedade medieval se tem tornado a experiência normal, desde a revolução industrial, vivemos realmente num ambiente moldado por humanos: até os trabalhadores da terra (especialmente os trabalhadores da terra, de facto) são afectados pelo mercado mundial de arroz. A mão que surge do céu e se vê na janela onde aparece o Holiday Inn, na capa de Overnite Sensation, promove, como em Time Out of Joint de Philip K. Dick, uma visão da realidade como cenário de teatro. A mão conserta ou apaga um candeeiro de rua: vivemos numa paisagem em miniatura e todas as nuvens são apenas zeppelins, o calor do sol apenas uma construção engenhosa de espelhos e lentes de aumentar. A proximidade de Hollywood e da Disneylândia – com as suas réplicas de cidades, a reprodução física da realidade que persegue uma ilusão – influencia fortemente tanto Dick como Zappa.
Estas ideias são similares a certos tipos de visões esquizofrénicas. A alienação que registam, ao ver o meio ambiente em que vivemos como artificial, de facto reconhece uma verdade. Zappa e Dick fornecem-nos um documentário surrealista da vida sob o capitalismo, onde o meio ambiente criado por seres humanos é considerado natural e inevitável por causa daquilo a que Marx chamava ‘ideologia’: o conjunto de ideias que justificam as regras da classe capitalista. Zappa dá a esta visão paranóica um tom político quando diz:
A ilusão de liberdade continuará enquanto for lucrativo continuar a visão. Quando a ilusão se tornar demasiado cara de manter eles simplesmente deitarão o cenário abaixo, arrancarão as cortinas, afastarão as mesas e as cadeiras do caminho, e tu verás a parede de tijolos na parede de fundo do teatro.
Quando Zappa cantou ‘I’m the Slime’ em Overnite Sensation foi vilipendiado por estar apenas a satirizar o ‘alvo fácil’ da televisão, só que era mais que isso, o próprio disco era a porcaria (slime), e não uma qualquer alternativa.
Na capa, vemos a televisão, onde Zappa mostra os dentes, num sorriso ameaçador, enquanto a porcaria escorre para fora do ecrã do televisor: não há refúgio na arte alternativa, não há margem para espectadores, apenas margarina (ou mah-juh-rene) para todos e cada um de nós. Surpreendentemente consegue, mesmo assim, fornecer mais substância aos analistas da arte vanguardista do que os artefactos cuidadosamente bordados do não-comercialismo.
Estes argumentos reiteram os paradoxos da Arte Pop, só que os álbuns de Zappa não estão cuidadosamente guardados no museu Tate. A nota continuava:
Aquilo que tocamos é mais do que aquilo que tocamos. Fazemos parte do projecto/objecto. O projecto/objecto (talvez prefiram evento/organismo) é composto por qualquer meio visual à disposição, pela consciência de todos os participantes (incluindo o público), todas as diferenças perceptivas, Deus (como energia), a Grande Nota (como matéria básica de construção universal), e outras coisas. Fazemos uma arte especial num meio ambiente hostil a sonhadores.
Aquilo que estou a tentar descrever é o tipo de atenção dada a cada letra, melodia, arranjo, improvisação, a sequência destes elementos no disco, a capa, que é uma extensão do material musical, a escolha do que é gravado, lançado, e/ou apresentado num concerto, a continuidade ou contraste de matérias que aparecem de álbum para álbum etc, etc, etc... todos estes detalhes fazem parte da Grande Estrutura ou do Corpo Principal de Trabalho. Os detalhes mais pequenos contêm não apenas os elementos do Corpo Principal de Trabalho mas, por causa da sua cronologia na execução, dão-lhes ‘forma’ num sentido abstracto.
Os temas e imagens que se ligam e articulam a esta estrutura são deliberadamente escolhidos dentre detritos periféricos de símbolos e clichés culturais. Zappa descreveu o riff de ‘Tryin’ to Grow a Chin’ como ‘arquetipicamente estúpido’ e tem falado de como as suas canções são construídas com ícones culturais: ‘Contêm informação codificada não apenas sobre o modo de vida americano, contêm informação codificada sobre processos psicológicos que também são comuns aqui na Europa.’ Não se podem ver as canções de Zappa como “auto-expressões”; elas concatenam ligações verbais e musicais e constroem monstruosidades merzbau. Quando se encontram estas ligações no mundo ‘real’ elas possuem uma aura esquisita: Zappa demonstra com sucesso como a cultura que nos rodeia é artificial, um gesto surreal.
Esta alquimia tem o elemento objectivo de que as cristalizações de Zappa que refractam verdades sociais estão para além do seu próprio controlo: nem tudo é predigerido e arranjado. Ao interpretar o modo como os ícones culturais interagem, o zappógrafo é confrontado, inevitavelmente, com a sociedade real e não apenas com a particular visão de Zappa. Arte como espelho da natureza – Zappa argumenta que a sua arte inverte a relação tradicional (‘imaginem que também podiam lá viver’). A catalização experimental destes sinais no seu trabalho é tal que a fusão se torna profética: o mundo que vive no exterior do disco parece imitar os seus temas. Na capa de Overnite Sensation as letras invertidas no espelho (a mensagem sobre reciclagem na lata de cerveja esmagada) aparecem no nosso ponto de vista: tornamo-nos uma reflexão da arte de Zappa.
A escolha do artista para a capa é interessante. As colagens de David B. McMacken também foram usadas na capa e no poster de 200 Motels. Enquanto as colagens de Cal Schenkel possuem uma beleza schwitteriana juntamente com uma repulsa pelo entertenimento, aqui estamos no mundo do grafismo de estúdio. A amalgamada cena no motel foi inteiramente dirigida por Zappa. O pé de boneca que pontapeia a cadeira refere-se ao técnico de estrada que deu um pontapé numa por ter tido uma explosão de fúria, há a toranja abusada pelo técnico e uma mala forrada com credenciais de palco dos Mothers.


Xavier @ 16:13

Qui, 24/07/08

 

Férias? Com esta crise?! :)
A sério que penso ir, para um local perto, mas que podia ser tão remoto como a Patagónia. Obviamente, não direi mais nada sobre o assunto.
Quanto ao tópico, reparei de facto na irritante "erudição" de Watson. E já não é a 1ª vez. "Time Out of Joint" de Philip K. Dick, por exemplo. Se, por acaso, não conhecesse bem a Obra deste escritor (um dos meus favoritos de FC) não compreenderia do mesmo modo o texto. Quando o autor se refere a certo tipo de "visões esquizofrénicas", pensei logo em "Valis" de P.K.Dick. A acção de "Valis" decorre num ambiente de drogados, e nunca sabemos quando os acontecimentos são "trips" ou reais, quando os diálogos são imaginários ou não, pois o autor não separa, de propósito, os momentos em que os personagens estão sob o efeito de droga ou têm um vislumbre real do mundo quando o efeito desvanece, mas nunca desaparece completamente. Torna-se tudo surreal, o inconsciente sai e mostra-se, monstruoso!"A ilusão de liberdade continuará enquanto for lucrativo continuar a visão...." - Como escreve Watson. Vê-se onde foi buscar o estilo.
Definitivamente, este livro não é fácil de digerir.
Mas não te preocupes, embora invisível estou sempre presente para as Dialécticas e não só, como prometi.
Um abraço e parabéns pelo Gengis.

Pedro Marques @ 22:02

Qui, 24/07/08

 

Olá Xavier!
Ainda bem que continuas por aqui. É verdade aquilo que dizes sobre as referências. Mas são muito bem observadas, não achas? Situar algumas das associações de Zappa ao nível da literatura de F.C. é não só correcto, mas também assustador.
Perceber que as ligações operam a vários níveis, entre os quais o inconsciente talvez explique melhor o fascínio que a música de Zappa exerce sobre as pessoas que se sentem atraídas por ela.
A partir daqui o livro só fica mais complicado. A tradução é dificílima. Se encontrares alguns gatos ou coisas incompreensíveis, diz por favor. Às vezes as coisas parecem-me compreensíveis mas às outras pessoas não.
Um grande abraço, quando decidires ir para a Patagónia, avisa, pode ser que vá contigo... :-)
abraços