É sabido que temos autocarros antes de os conseguirmos conduzir, carros antes de os conseguirmos guiar e espadas antes de sabermos lutar com elas. Temos máquinas antes de as sabermos usar porque ao princípio não sabemos tudo o que se pode fazer com elas. A máquina não faz apenas um copo ou um sapato. Os que fazem e utilizam a máquina são alterados por ela. Não lhes dão um novo objectivo, a máquina torna-se necessária para que eles vivam de uma nova maneira. As máquinas desmistificam a terra, os homens e as sociedades. Tornam a velha expressão da humanidade e a sociedade a ela ligada desumanas. A tecnologia transforma-nos e transforma a sociedade. Muda a maneira como vivemos e assim também as nossas crenças, as nossas atitudes, hábitos, comportamentos, a própria consciência — tudo muda. E como a consciência é tanto mental como emocional, a mudança é suficientemente grande para fazer de nós pessoas diferentes. Tornamo-nos ou mais racionais ou mais irracionais. A nossa espécie inova. Quando mudamos os meios mecânicos em que vivemos, alteramos as nossas relações sociais. Desenvolvemos novas atitudes para com o resto da sociedade e o que está nas nossas cabeças muda. Enquanto sobrevivemos mudamos.
Como poderíamos cooperar de outra maneira? E como pode a sociedade funcionar sem cooperação — tanto forçada, como no passado, ou livre, tal como é possível e necessária pela tecnologia moderna? Há uma constante e mútua influência entre tecnologia, espírito humano e ordem social. A sociedade muda para que possamos usar máquinas novas e os utilizadores mudam para que as possam usar e viver numa sociedade nova. Essas mudanças têm de ser racionais, se queremos continuar humanos. De facto, é quando tornamos estas mudanças racionais que criamos a nossa humanidade. As gerações herdam a humanidade da sua sociedade, mas só a absorve quando a recria, resolvendo novos problemas. É isso a humanidade. Todas as gerações enfrentam problemas novos e ao resolvê-los criam uma nova humanidade. É claro que a sociedade feudal não conseguiria gerir a tecnologia moderna. Mas, mais importante, se tentamos gerir a tecnologia moderna com consciência e relações sociais feudais, não obtemos feudalismo. Em vez disso, as relações sociais irracionais distorcem a consciência de maneira a criarem uma ponte que separa a velha ordem social e a consciência tornada necessária pelo funcionamento da tecnologia moderna. Essa distorção chama-se fascismo.
A arma é uma máquina que causa respeito, medo, dor ou morte. Pode ser bem ou mal usada. Bem usada como? Quando a tecnologia muda a consciência humana, também é necessária uma mudança social. A sociedade resiste à mudança. É baseada nas leis e nas relações de propriedade que beneficiam os governadores da velha ordem social. Gerem-na segundo a velha consciência calcificada pelas universidades, igrejas, teatros, hábitos, opiniões e por aí adiante. Vivemos em sociedades que são tão novas como velhas e que são por isso inadequadas a muitas das nossas necessidades. Se a sociedade não é alterada racionalmente, a consciência que as pessoas têm dela é distorcida e por isso tornam-se, como consequência, menos humanas. Muitas resistem a essa mudança mas mesmo nesse caso a mudança racional chega muitas vezes tarde. Não pode ser apenas introduzida através de persuasões pacíficas.
Edward Bond