Finalmente de volta. Moscovo é uma cidade belíssima, os russos são um povo contraditório, altamente sedutor e atractivo mas eu já estava a precisar de Lisboa e da desordem tão portuguesa. Talvez seja esse o traço mais característico dos russos que conheci. A sua obsessão pela ordem. A mania de quererem controlar tudo sempre, a mania de quererem mostrar sempre aos outros que eles têm algum poder e sabem o que fazem. O caso mais estranho foi quando nos quisemos despedir de colegas no exterior do edifício Puschkin onde estávamos alojados e não pudemos sair. Apenas porque não. É uma mentalidade formatada por anos de regras duras, cartazes de propaganda (por muito artísticos que sejam), disciplina e muita paixão.
Para além da ordem os russos gostam muito de vodka. Até os posso perceber. Quando ela é boa, como é o caso, tal como a cerveja russa que é quase sempre óptima, não dá nenhuma ressaca, o que convida sempre à repetição, principalmente quando estamos numa casa de estudantes com gente de todo o mundo que vamos todos os dias conhecendo e aprendendo a amar. Meu Deus, que sessões, que concertos improvisados, que jantares opíparos, que mulheres lindas e pessoal simpático!
A outra coisa que os russos gostam é de flores. Pode parecer estranho, mas é verdade. Por todo o lado, em cada esquina há uma loja de venda de цвети (que já agora no singular "цвет" tanto quer dizer flor como cor, bonito não?). Por todos os parques vemos arranjos florais que formam desenhos e letras. Oferecer e comprar flores parece ser um passatempo e um hábito bastante bem enraízado. Posso compreender, quem não ofereceria semanalmente flores àquelas mulheres?
Outra coisa de que os russos gostam é de carros com vidros fumados. Não é porque tenham alguma coisa a esconder, não, é porque é estiloso. Os russos também têm a sua grande dose de pimbarice. Só que ao mesmo tempo conseguem conviver com carros a cair de podre. E esse é um dos grandes encantos de Moscovo. Parece uma cidade humana, cheia de contradições, os prédios são velhos, dos anos 50 e 60 a maior parte, mas nada parece fora do lugar. As urbanizações são pensadas de acordo com um projecto bem delineado. Nada é feito ao acaso. Não vemos prédios a serem construídos ad lib e depois ligados por uma estrada mal parida e um rotunda absurda como cá. Tudo é previsto e nada parece não ter uma função. Ainda que as coisas tenham o ar de usadas, é esse o fascínio, não há regras da CEE para normalizar friamente todos os aspectos da vida. Não há nada disso. Moscovo ainda parece uma cidade habitada por seres humanos. Contraditória, com estádios a cair de podre e jardins em flor. Teatros em reabilitação e avenidas com buracos.
Beijinhos